Viva Saúde
Edição 54 - Outubro/2007
 
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crônicas para deixar o seu dia-a-dia mais leve
  Não quero, não posso e não vou... dormir

POR STELLA GALVÃO

ILUSTRAÇÃO BUSSADORI
Era preciso deter aquele cansaço absurdo que se apoderava dele no fim da noite. Comprou meia dúzia de um certo chá milagroso e fez estoque para o mês inteiro

Acordou com a sensação de ter perdido muito tempo. Ele estava no topo de uma carreira meteórica. Trabalhava feito um hércules que busca concluir todos os dias o 12o trabalho. Tinha que achar a frase, a imagem ou a percepção do instante que faria sua fama. A roda-viva das reuniões, as sessões intermináveis de idéias lançadas em todas as direções, os happy hours que eram horas de labuta, sempre em busca de qualquer coisa que se traduzisse em mais vendas para um produto qualquer, de pasta de dente anticáries a carro imune ao impacto de meteoros e absorvente neutralizador de fluxos.

Decidiu que procuraria ajuda. Era preciso deter aquele cansaço absurdo que se apoderava dele no fim da noite. E se justo às 3 horas da matina viesse o insight, o toque de gênio, o clique da lampadinha, o grito de eureka? Não dava mais para sacrificar aquelas horas preciosas.

Ouviu de vários especialistas que, se insistisse naquela obsessão, poderia encontrar o atalho para a doença, o enlouquecimento. Deu de ombros. Descobriria sozinho a pílula dos seus sonhos. Soube, então, que no alto da cordilheira do Himalaia, no planalto tibetano, certo guru difundira os milagrosos efeitos de um cogumelo que, consumido sob a forma de chá, em muitas doses ao longo do dia, privava a pessoa de sono e a mantinha em vigília nas horas seguintes. Então era por isso, pensou, que o Lama, encarnação sucessiva do Buda, parecia desafiar o tempo, sempre sorridente e com a palavra certa para apaziguar almas ILUSTRAÇÃO BUSSADORI 90 VIVA SAÚDE POR STELLA GALVÃO bomhumorétudo crônicas para deixar o seu dia-a-dia mais leve em conflito. Procurou em camelôs um cogumelo assemelhado, comprou meia dúzia deles secos e fez chá para um mês inteiro. Consumiu todo o dia, sempre com a garrafinha à mão.

Os colegas faziam troça daquele líquido amarelo na mesa de reuniões, mas ele apenas emitia um risinho misterioso enquanto bebericava.

Quando a noite chegou, continuou a rabiscar idéias gastas nos papéis enquanto as horas passavam. Nada do sono vir. Então surgiu a grande campanha. Ele percorria um vale sem fim e descortinava no fim da jornada uma latinha com um líquido desses que descem pela garganta.

O cenário idílico contrastava com sua figura em andrajos, mas o pote no fim do arco-íris era o néctar do consumidor sedento. Alcançou a lata, fechou a campanha e tombou sobre o criado mudo. Acordou nove horas depois, no final da manhã, com o telefone aos berros. Era o patrão comunicando que o cliente havia cochilado de tanto esperar por ele.

A desejada campanha só existira mesmo no sonho daquela noite muito bem-dormida.


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