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Edição 106 | EXPEDIENTE
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  Vegetariano e saudável
A busca por uma vida saudável, compaixão pelos animais ou preocupação com o meio ambiente? Não importa o que leva uma pessoa a se tornar vegetariana. O importante é que essa decisão seja consciente e equilibrada!

por André Bernardo | fotos Danilo Tanaka
fotos Danilo Tanaka

Maluca, teimosa e irresponsável. Esses foram apenas alguns dos muitos adjetivos que a tradutora e programadora visual Beatriz Medina ouviu de sua mãe quando explicou a ela que, daquele dia em diante, não comeria mais carne. Na ocasião, a estudante de Jornalismo, então com 19 anos, resolveu conhecer um restaurante macrobiótico perto da faculdade. Gostou tanto do que viu e comeu por lá, que não quis mais outra vida. A decisão foi tomada há 35 anos e, até hoje, Beatriz garante não ter se arrependido dela.

Aos 54 anos, Beatriz conta que criou os cinco filhos, hoje com idades entre 36 e 21 anos, todos no vegetarianismo. "Há muito preconceito por aí. Quando meus filhos eram pequenos, cansei de ouvir que eles cresceriam 'fracos, doentes e desnutridos' se não consumissem carne. Com o tempo, não só os meus filhos como milhares de outras crianças vegetarianas e saudáveis provaram que tudo isso não passa de mito. A alimentação das crianças não precisa ter carne para ser nutritiva", acredita Beatriz.

Estudos revelam que, quando bem planejada, essa dieta ajuda a prevenir doenças cardiovasculares, diabetes do tipo 2 e alguns tipos de câncer, como próstata e intestino grosso. E mais: reduz o peso. Depois de avaliar 33.883 voluntários onívoros (que consomem tanto alimentos de origem vegetal quanto animal) e 31.546 vegetarianos, o estudo EPIC-Oxford constatou que 7,1% dos homens e 9,3% das mulheres onívoros eram obesos, contra apenas 1,6% dos homens e 2,5% das mulheres vegetarianos.

Manual de Sobrevivência do Vegetariano

Grávidas vegetarianas devem redobrar a atenção quanto ao ferro, cálcio e zinco. Sem as quantidades necessárias, as futuras mamães podem apresentar anemia. Por isso, a recomendação internacional é que, vegetarianas ou não, elas devem fazer uso de suplementação de ferro no período gestacional.

● No caso do cálcio, alimentos com alto teor de ácido oxálico (espinafre, beterraba, acelga e cacau) devem ser evitados porque dificultam a absorção dele. Crianças fora do período de lactação podem utilizar leite de soja fortificado, como substituto ao leite de vaca.

● Para melhorar a absorção de zinco, deixe os feijões de molho na água da noite para o dia. Isso reduz o teor do ácido fítico, que dificulta a absorção desse mineral. Já o consumo de alimentos ricos em vitamina C potencializa a absorção de ferro, aquele encontrado em alimentos de origem vegetal.

● Quem não come peixe deve buscar o nutriente ômega-3 em alimentos como a linhaça. Para as crianças, recomenda-se ingerir uma colher de chá de óleo de linhaça, pura ou sobre os alimentos, sem esquentar. Se a criança estiver sendo amamentada, quem deve fazer uso do óleo de linhaça é a mãe.

Uma questão de respeito
Mas o que leva uma pessoa a abolir a proteína animal do cardápio? Bem, são muitos os motivos. Desde a busca por uma vida mais saudável até o respeito aos animais e ao meio ambiente. No final das contas, pouco importa o motivo. O que realmente importa é que a decisão seja tomada com consciência. E com a orientação de um profissional. Afinal, a dieta vegetariana é rica em carboidratos, fibras, magnésio, potássio, folato e antioxidantes, como as vitaminas A, C, E e K. Mas é pobre em cálcio, selênio, cobre, iodo, ferro, zinco e vitaminas B12 e D.

"A dieta vegetariana é mais saudável porque elimina do cardápio um alimento que é rico em substâncias nocivas ao organismo, como a gordura saturada e o colesterol, mas também porque permite a inclusão de uma maior variedade de alimentos", defende o nutricionista George Guimarães. E continua: "A busca pelos nutrientes essenciais à saúde, diferentemente da busca por um substituto à carne animal, leva a pessoa a ampliar o seu cardápio. Com isso, ele aumenta a ingestão de elementos que nutrem e os fatores protetivos do organismo."

Vegetariano desde os 4 anos de idade e vegano desde os 20 anos, Guimarães explica que todo e qualquer indivíduo, de grávida e lactante a criança e idoso, pode adotar uma dieta vegetariana. Entretanto, ele destaca que antes disso é muito importante consultar um especialista em nutrição.

"Dependendo do grau de informação da pessoa, muitos podem fazer a transição por conta própria e sem riscos, mas a boa orientação nutricional, baseada em conhecimento científico, é a melhor maneira de assegurar uma transição saudável", garante.

A dieta vegetariana ajuda a prevenir doenças cardiovasculares, diabetes do tipo 2 e alguns tipos de câncer

Suplementos vitamínicos
Vice-presidente da Associação Brasileira de Nutrologia (ABRAN), José Alves Lara Neto concorda que o consumo de carne vermelha não é essencial para a saúde. Mas ressalta: é preciso recorrer a suplementos vitamínicos e alimentos fortificados para suprir a carência de algumas substâncias vitais. "A vitamina B12 só é encontrada no reino animal e sua falta pode causar de anemia a danos neurológicos. Já o cálcio deve ser observado em vegetarianos estritos", alerta, referindo-se àquelas pessoas que, além de carne, não consomem ovos, leite e seus derivados.

O termo "vegano" atribuído a Guimarães ou "vegetariano estrito" usado por Neto se refere à vertente mais radical do vegetarianismo. Os adeptos do veganismo não consomem qualquer produto derivado do reino animal, seja ele carne, mel ou gelatina. Nem, tampouco, usam objetos de couro, lã ou seda. Mas há outros tipos, como ovolactovegetarianos, lactovegetarianos e ovovegetarianos. É a inclusão ou não de ovos e derivados do leite no cardápio que determina o tipo de vegetarianismo praticado pelo indivíduo. Há quem considere, ainda, um quinto tipo: os semivegetarianos. Quem explica o que quer dizer o semivegetarianismo é o nutrólogo Eric Slywitch, da Sociedade Vegetariana Brasileira (SVB): "Esse termo se refere a indivíduos que utilizam carnes, geralmente brancas, em uma ou até três refeições por semana. Vale lembrar que esse indivíduo não é vegetariano, mas esse termo ganha espaço para designar o indivíduo em transição para a dieta vegetariana ou, então, que busca um estilo de vida com menos consumo de carnes".

 

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