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Edição 105 | EXPEDIENTE
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Miomas no alvo
  As técnicas menos invasivas e que preservam o útero
Conheça as novas técnicas cirúrgicas que são capazes de atingir em cheio esses tumores benignos, preservando ao máximo o útero da paciente

POR STELLA GALVÃO
ILUSTRAÇÃO MG STUDIO

A professora de inglês Claudia Napolitano, de 47 anos, foi a primeira a entrar no carro novo do primo, com estofado aveludado, cor creme, recém-saído da concessionária. "Quando eu levantei para sair, vi a mancha vermelha enorme espalhada no banco. Terrível", recorda-se ela. Esse tipo de situação constrangedora repetiu-se ao longo de três décadas, até que um médico consultado por ela indicou há quatro anos uma cirurgia de remoção parcial do útero para livrála de uma vez dos miomas que aumentavam muito o seu fluxo mensal e causavam uma anemia crônica.

O médico José Antônio Marques, de São Paulo, optou por submeter a professora à histerectomia (extirpação cirúrgica total do útero) que mantém algumas estruturas do aparelho reprodutor. "A preservação dos ovários é fundamental para manter as características hormonais da mulher", afirma o ginecologista e obstetra Nilo Bozzini, responsável pelo ambulatório específico de mioma uterino do Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo (USP). Quanto ao colo (canal estreito que liga a vagina ao útero), mantê-lo pode ser uma garantia de prazer. Segundo o ginecologista e obstetra Abner Lobão Neto, da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), estudos apontam o envolvimento dessa estrutura diretamente no mecanismo que gera o orgasmo feminino.

Assim como Claudia, aproximadamente 80% das mulheres irão conviver com os miomas, mas a maioria sequer desconfiará do problema por absoluta falta de sintomas. Essas estruturas na maioria das vezes milimétricas são tumores benignos que se instalam ao redor do útero - raramente no interior do órgão, uma vez que precisam de músculo para crescer. Quando dão sinais (alteração do volume menstrual com maior sangramento, dor pélvica - na porção inferior do abdômen - e aumento do volume da barriga), isso ocorre em 45% das mulheresna fase reprodutiva, às vezes em idades limítrofes para gerar filhos. O adiamento da gravidez para a faixa etária dos 40 anos, uma realidade que bate à porta das clínicas ginecológicas nas últimas décadas, também coincide com o período mais freqüente de aparecimento desses sintomas e, portanto, de descoberta de um ou mais miomas.

Por que, afinal, esses tumores surgem

Para essa pergunta constante das pacientes, os médicos têm a mesma resposta pronta. Não há uma causa específica e bem definida para eles. Miomas são hormônio-dependentes, ou seja, crescem alimentados por constantes liberações de doses dos hormônios femininos: o estrogênio e a progesterona. É por essa razão que a menopausa é bem-vinda quando os miomas são descobertos alguns anos antes dessa alteração na fisiologia feminina.

Com o fim da menstruação, os hormônios circulantes diminuem drasticamente até o término da produção pelo organismo, e os miomas, por sua vez, perdem sua fonte de alimentação. Há outros fatores importantes atrelados de alguma forma ao aparecimento desses tumores, tais como herança e mutações genéticas, além do fator racial. Estima-se que o mioma seja de três a nove vezes mais freqüentes na raça negra em comparação com as mulheres de outras raças.

Os tipos mais comuns

Há três formas principais de miomas, cujos tratamentos dependem da idade da mulher, da localização e dos sintomas.

SUBSEROSO: é aquele mioma localizado na camada externa do útero e que costuma causar deformidades no contorno do órgão. Raramente produz sintomas, a não ser quando comprime estruturas em volta da bexiga e do intestino. Neste caso, a vítima apresenta cólicas.

INTRAMURAL: é geralmente grande e, por isso, mais fácil de ser identificado. Fica no meio muscular uterino, uma localização que não altera a configuração do útero, mas dificulta a retirada do mioma. A técnica de embolização arterial (procedimento de última geração) é a mais indicada.

SUBMUCOSO: localiza-se na cavidade endometrial, camada interna do útero, causando deformidades no útero. Pode ser extraído por meio de histeroscopia, uma técnica de retirada do mioma cujo acesso se dá pela vagina.

Em busca do intruso

Tudo começa pela consulta de rotina ao ginecologista. A mulher pode contar ao médico que seu fluxo menstrual sofreu alteração ou que está sentindo uma dor persistente na parte inferior do abdômen. Neste caso, ele terá que descartar outras situações que causam incômodo semelhante, como adenomiose (alteração endometrial) ou distenções na fibra muscular uterina. O exame físico pode rapidamente identificar a presença do mioma, dependendo da localização desse tumor e especialmente se for bem desenvolvido. "O exame de toque mostra o aumento do volume do útero", afirma o médico Nilo Bozzini, da USP. A avaliação consiste na introdução do dedo médio esquerdo do ginecologista no interior da vagina, enquanto com a outra mão ele apalpa a região abdominal. Segundo Bozzini, o volume alcançado pelo útero com mioma pode ser equivalente ao de uma gestação de nove meses. O médico revela, inclusive, que já extraiu um mioma de 18 quilos e que, em um recente mutirão no Hospital das Clínicas, quando foram realizadas doze miomectomias (que é a retirada cirúrgica apenas dos nódulos), havia uma mulher cujo útero media 1.200 centímetros cúbicos (cm3), sendo que o normal é 90 cm3.

CÂNCER E INFERTILIDADE

Hoje, pelo menos dois mitos relacionados aos miomas são combatidos no dia-a-dia dos consultórios ginecológicos:
 O primeiro afirma que o mioma é um tumor pré-cancerígeno. "Nada mais falso do que esta afirmação", garante o médico Nilo Bozzini, da USP. O câncer de útero apresenta características semelhantes ao mioma, mas aparece em menos de 1% das mulheres. "Também é incorreto dizer que todo mioma pode evoluir para um câncer", confirma Abner Lobão, ginecologista e obstetra da Unifesp. Em duas décadas de intensa movimentação de mulheres em seu consultório, ele nunca detectou um único achado de tumor cancerígeno.
 O segundo mito diz respeito à infertilidade. "Não é verdade que a presença de miomas obrigue necessariamente à retirada do útero", explica o professor Bozzini. Há técnicas que asseguram bons resultados no tratamento dos miomas com o mínimo de invasão e agressividade. Mas, dependendo do caso, se houver necessidade de remoção do útero, terá que ser uma decisão compartilhada entre o médico e sua paciente. Independentemente da remoção ou não do órgão, porém, os miomas podem ser uma das causas de infertilidade, por dificultarem a fixação do óvulo fecundado no interior do útero. "Isoladamente, o mioma causa infertilidade em 5% dos casos. Mas esse índice pode chegar a 15% quando associado a fatores tubários (como lesão ou obstrução das trompas de Falópio) e à endometriose", esclarece o médico Nilo Bozzini.

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