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Edição 109 | EXPEDIENTE
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  É tempo de recomeçar
A equação é simples: menos cigarro = mais qualidade de vida. Já que é assim, quebre a dependência do tabaco o quanto antes

POR JANETE TIR
ILUSTRAÇÃO MG STUDIO

SAÚDE EM RISCO
"Já fiz duas cirurgias no coração e continuei fumando porque o cigarro, para mim, sempre foi muito importante. Eu era apaixonada por ele, era um amigo, um companheiro. Com essa história de ter problema no coração, o pulmão sempre fica um pouco comprometido também. Quando fui procurar um médico, pensei que nunca teria que largar o cigarro. Mas isso aconteceu em 2005 e até hoje não voltei a fumar. Agora sei que tinha uma vida bem menos saudável. Quando ficava resfriada, por exemplo, logo sentia falta de ar. Mas não foi nada fácil. Segurar e levar o cigarro à boca é um hábito de muitos anos e fica enraizado na gente. Hoje, em dia, consigo controlar um pouco mais as minhas mãos mas, antes, quando tinha vontade de fumar, precisava segurar alguma coisa para não acender logo um cigarro. Afinal, passei 30 anos fumando. Suportei essa fase com o chiclete de nicotina, que me ajuda até hoje. Quando sinto muita falta do cigarro, masco a metade de uma pastilha e mais tarde a outra metade.

Fumei durante 30 e poucos anos e sempre gostei do cigarro. Passou a ser uma necessidade, me sentia confortável e me acalmava. Quando a pessoa pára de fumar, não deve ceder à tentação. Nem ter desculpas para voltar a fumar como, por exemplo, 'hoje estou com um problema sério em casa'. Eu vou fazer o possível para não voltar a fumar. O mais engraçado é que, só depois de parar, percebi o cheiro do cigarro. Quando abraço alguém e sinto aquele cheiro, logo me lembro que muitas pessoas já passaram por isso comigo. A casa também fica cheirando a fumaça, as suas roupas, tudo. Parar de fumar é algo que se precisa querer muito. Por isso, faço o possível para não pensar no cigarro e procuro me entreter com o trabalho."

Deise Cirillo, secretária aposentada, 66 anos.
Há 2 anos sem fumar

PARA ESTAR BEM NA VIDA
"É difícil de acreditar, mas deixei de fumar porque acabou a vontade. Com a idade avançando, achei que continuar fumando me prejudicaria muito, ainda mais que já sentia uma certa canseira nas caminhadas e na corrida. Mas não foi fácil, não. Muitas pessoas dizem que na hora em que vier a vontade de fumar é só chupar uma bala. Só que se você fizer isso sempre vai engordar muito, o que também não é uma boa saída. A princípio fiquei preocupado, pois ganhei uns 20 quilos.

Agora tudo voltou ao normal. Não fiz nenhum tipo de tratamento. Consegui parar de fumar apenas com a força de vontade e acho que, mesmo tomando algum remédio, se não houver uma grande disposição para deixar o cigarro, vai ser ainda mais difícil. Depois que parei, em 1995, senti uma melhora de 100%. Fumava desde os meus 18 anos, pelo menos, dois maços por dia e, às vezes, até maneirava. Mas cada vez que tinha uma preocupação recorria ao cigarro e ao café. Hoje, não tenho mais vontade de fumar. Ao contrário. Não suporto alguém fumando e soltando fumaça ou, então, um cinzeiro cheio, pois o cheiro é impressionante.

Tenho certeza de que se não tivesse deixado o cigarro naquela época, hoje eu não estaria aqui."

Paulo Trota, aposentado, 72 anos.
Há 12 anos sem fumar

PROVA DE AMOR
"Comecei a fumar aos 14 anos e depois do primeiro cigarro senti que precisava fumar cada vez mais. Consumia três maços por dia, 60 cigarros, e às vezes até passava disso. Quando me sentia meio nauseado, mas a vontade de fumar continuava, comprava aquelas cigarrilhas com o cheiro bem forte, dava duas ou três tragadas e, só assim, passava aquela ânsia de comprar mais um maço.

Tirando um intervalo de oito meses, fumei durante 16 anos de uma forma desbragada. Em 1971, fui ao médico e ele constatou que eu tinha um pequeno depósito de alcatrão na traquéia e alguns problemas pulmonares e me colocou contra a parede: ou parava de fumar ou morria. Na época, tinha 24 ou 25 anos, parei e fiz um tratamento sério durante oito meses. Depois desse período, o médico disse que eu estava curado. Saí do consultório e ouvi muitos conselhos: 'vê lá o que você vai fazer da sua vida, agora que está muito mais saudável'. No dia seguinte, comprei três maços de cigarro e comecei tudo de novo, no mesmo ritmo, aquela loucura de sempre.

Em janeiro de 1975, minha mulher estava grávida do nosso primeiro filho e, bem no início da gravidez, ela teve um pequeno sangramento. Na hora, o médico ficou meio assustado, mas logo viu que não era nada grave. Entrei em pânico e pensei que, por causa do cigarro, estava matando o meu filho.

Assim, de um dia para o outro, resolvi que não ia mais fumar. Como não tinha certeza até onde essa minha determinação me levaria, continuei mantendo um maço de cigarro e o isqueiro no bolso, caso fraquejasse ou me sentisse mal, com a crise de abstinência. Hoje, são 32 anos sem fumar. No começo, senti muita vontade, e sinto até hoje, mas sei que não devo. Ultimamente, a vontade tem sido menor, mas não posso dizer que tenho repugnância pelo cigarro como as pessoas falam. Deixar esta dependência foi uma das melhores coisas que fiz.

Se tivesse continuado a fumar no mesmo ritmo, acho que não sobreviveria. Acabei usando o mesmo tipo de raciocínio dos Alcoólicos Anônimos, desafiando a mim mesmo: um dia de cada vez.

Hoje eu consegui, vamos ver se eu consigo amanhã. E deu certo, felizmente. Mas tudo isso aconteceu por uma determinação maior. Talvez eu precisasse tanto de um gatilho para parar de fumar que inventei: por amor ao meu filho, já que eu não tinha amor por mim mesmo."

Décio Piccinini, jornalista, 61 anos.
Há 32 anos sem fumar

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