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Edição 105 | EXPEDIENTE
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  Descansar para quê?
Envelhecer e aposentar-se não deve ser sinônimo de pendurar as chuteiras. Especialistas garantem que o idoso que busca prazer, realização pessoal e alegria de viver depois da aposentadoria vive mais e melhor

POR WIVIAN MARANHÃO

O que pode ter em comum uma diretora de escola, um professor de dança e um adepto do autoconhecimento? Simples: eles já passaram da 6a década de vida, se aposentaram há anos, mas não se entregaram ao ócio. Ao contrário, se autodefinem como ativos, felizes e realizados, experimentando um envelhecimento muito mais saudável.

Se a tendência de crescimento da população com mais de 60 anos se mantiver constante, o Brasil deverá alcançar 32 milhões de idosos em 2025, o que nos colocará na sexta posição do ranking mundial de população idosa. O aumento da expectativa de vida do brasileiro é um fato comprovado pelos censos anuais. Atualmente, virar octogenário não chega a ser uma grande proeza, mas um desdobramento de uma série de conquistas e não apenas médicas.

Segundo Wilson Jacob Filho, diretor da Geriatria do Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo (USP), há 50 anos a medicina aconselhava as pessoas de mais idade a fazer repouso. Era clássica a imagem do velho de pijama, sentado na poltrona da sala, sem fazer qualquer esforço, sem andar e nem sequer ir à padaria. “Hoje, entendemos que o envelhecimento ativo conduz ao envelhecimento saudável. O envelhecimento ativo prioriza não só a parte física, do movimento, mas também as atividades sociais, profissionais e afetivas. O idoso precisa compreender que só pertencerá à comunidade se agir como ela age. Caso contrário, será excluído naturalmente”.

O segredo é não parar
Se chegar à aposentadoria é algo que, em geral, parece desejável, na prática pode ser frustrante. Com o envelhecimento da população, sair do mercado aos 60 anos tornou-se algo prematuro. É uma mudança que implica redução da renda, sensação de ociosidade e de perda de importância social, o que pode abalar profundamente a auto-estima.

É por isso que o idoso deve ter um projeto, garantem os especialistas. Seja um trabalho formal ou uma atividade voluntária, ele tem de dar continuidade à vida participativa.

Para a psicóloga Cláudia Ajzen, gerontóloga da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), a adesão do idoso ao trabalho voluntário ou a qualquer outra atividade, com a qual ele se identifique, reflete positivamente na sua saúde emocional. “Além dos ganhos pessoais relacionados com a própria dinâmica de trabalho, por exemplo, são percebidas melhorias subjetivas, como afirmação pessoal e postura mais otimista diante da vida”, explica a especialista.

Cláudia Ajzen, que também é professora da Universidade Aberta à Terceira Idade — um projeto da Unifesp que visa resgatar no idoso a busca por novos desafios —, conta que são evidentes as mudanças observadas nos alunos que passam a participar do curso. “Eles redescobrem suas potencialidades, melhoram a maneira de se vestir, passam a sorrir e a se cuidar mais, além de diminuírem sintomas depressivos e a quantidade de medicamentos que consomem”.

O médico Sergio Luis Blay, da Associação Brasileira de Psiquiatria, confirma: “aqueles que têm a oportunidade de fazer algo que realmente gostam, após a aposentadoria, experimentarão uma longevidade maior”. “Ambientes corporativos, geralmente exigentes e marcados pela pressão e a relação delicada com os colegas, pressupõem indicativos de obesidade, problemas circulatórios e vasculares, só para citar alguns males. Por outro lado, qualquer atividade feita com gosto e desvinculada de tensão e cobrança resulta em melhora do humor, disposição, sensação de renovação e em saúde e bem-estar”, diz Blay.

“Dançar me faz sentir mais jovem”
Nivo Tacusi, ou Sabu, como é conhecido pelos alunos, se delicia às sextas e sábados à noite dando aulas de bolero, chá-chá-chá, rumba e valsa. Ele tem 76 anos e costuma dar aulas particulares ou ministrá-las no Clube Esportes 11 Primo, na região sul da cidade de São Paulo. O ex-encarregado de ferramentaria não quer saber de outra vida. “Danço desde pequeno; sou um autodidata. Depois que me aposentei, decidi me dedicar exclusivamente a esta arte. Para mim, a dança faz a pessoa se sentir mais feliz, mais jovem. É o melhor esporte, na minha opinião. Hoje tenho 30 alunos, mas quero multiplicar esse número. Por isso, durante o dia exerço a função de contato publicitário no jornal Folha de Heliópolis. Lá, tenho a possibilidade de ampliar minha rede social e assim angariar novos alunos. E, sem falsa modéstia, sou um bom professor. A dança é tudo para mim. Sempre fui uma pessoa de bem com a vida. Mas não dá para negar que a dança intensificou a felicidade que carrego dentro de mim”, diz o animado Tacusi.

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