O corpo reconstruído Técnicas e métodos revolucionários, como o enxerto e os retalhos de pele, permitem às plásticas reparadoras garantirem melhoras físicas e emocionais aos pacientes com deformidades
POR GIULIANO AGMONT
O outro lado
Além de conhecer os limites dos procedimentos médicos, a pessoa precisa ter consciência plena da decisão que está tomando e se perguntar por que está fazendo isso, quando e onde pretende realizar a cirurgia, como irá proceder e quais são os sentimentos que tem em relação a toda essa situação. “Falsas expectativas podem acabar sendo trágicas. A cirurgia plástica muda a vida de um indivíduo, mas não vai transformá-lo completamente e muito menos resolver, em um passe de mágica, questões financeiras, pessoais e profissionais”, enfatiza a especialista Lourdes Brunini (SP), que recomenda, paralelamente, acompanhamento psicológico para quem pretende fazer uma plástica.
O cirurgião Douglas Jorge faz uma outra ressalva. “A medicina não é uma ciência exata, é impossível afirmar com precisão como o organismo vai reagir a uma operação”. O médico cita o exemplo das cicatrizes patológicas, conhecidas por quelóides, que são mais elevadas e irregulares. “Elas crescem progressivamente e podem tornar as seqüelas de uma cirurgia mais graves do que o quadro antes da intervenção.” Além disso, é importante lembrar que algumas pessoas têm restrições para serem operadas. É o caso de diabéticos, idosos, hipertensos, cardíacos e pacientes renais, por exemplo. Há ainda os doentes mentais, que não colaboram com o tratamento, e as pessoas com uma expectativa irreal. Por fim, os fumantes, que têm mais risco de apresentar necroses (putreficação de um tecido) e usuários de drogas lícitas ou ilícitas, que também podem apresentar problemas.
Ouça a criança
O tratamento da garotada com cirurgias-plásticas merece um capítulo à parte. A principal pergunta é: quem toma a decisão? No caso do lábio leporino, por exemplo, que é uma deformidade congênita caracterizada por uma fenda labial, dificulta a fala, a degustação e a audição, além de suscitar piadas e gozações na escola. Justamente por isso é um problema que precisa ser solucionado. “O ideal é que os pais conversem com o filho, porque a criança terá medo de enfrentar uma operação e também costuma dar mais trabalho no pós-operatório, descuidando dos pontos”, explica o médico Douglas Jorge.
“Já na situação da orelha de abano, é a criança que precisa se sentir incomodada ao ponto de querer operar”, pondera a psicóloga Lourdes Brunini. A especialista reforça a importância de um acompanhamento psicoterapêutico. “Quando corrige uma deformidade, a criança resgata a esperança de ser aceita, de não ser marginalizada, de não receber mais apelidos e de se amar. Ainda assim, ela precisa saber o que está fazendo e por quê”, reforça.
CIRURGIA PLÁSTICA MAMÁRIA
Há alguns anos, a cirurgia de reconstrução da mama, realizada em mulheres que tiveram seus seios amputados por conta do câncer, era considerada meramente estética. Isso levantava discussões entre médicos, pacientes, autoridades e planos de saúde. Mas essa questão parece estar superada. “Hoje, toda mulher que teve o seio retirado, se desejar, tem o direito de reconstituí-lo, incluindo o uso de prótese”, garante Douglas Jorge, diretor da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica (SBCP). “Ela não voltará a amamentar, mas irá recuperar sua feminilidade e sua sexualidade.” Agora a polêmica envolve os obesos que querem fazer plásticas, após a redução do estômago, pelos planos de saúde. “O indivíduo fica com pelo menos seis quilos de pele no corpo. Ele se retrai e até se abdica da vida sexual. Isso é saudável?”, questiona a psicóloga Lourdes Brunini, diretora da Faculdade de Ciências da Saúde de São Paulo (SP).
O QUE ESPERAR
Tecnologias como a lipoaspiração, a microcirurgia e a prótese têm mais de duas décadas de existência. Os enxertos e retalhos também são antigos. Para o cirurgião plástico Douglas Jorge, da SBCP, as pesquisas ainda são incipientes. “A reprodução de pele em laboratório, seja pela matriz dérmica ou cultura de tecidos, é promissora, mas ainda precisará de mais tempo para estar disponível. Há esperança também em relação ao projeto Genoma, que possibilitará a prevenção de eventuais problemas por meio do código genético (DNA), e também do uso de células-tronco, que poderiam regenerar tecidos”, avalia.
PLÁSTICA X PSIQUÊ
O aspecto psicológico é fundamental quando o assunto é cirurgia plástica. Vaidade, auto-estima e autovalorização são alguns dos sentimentos que estão ligados à busca por alterações físicas. “A saúde só é plena se o indivíduo tem condições de ser feliz”, argumenta a psicóloga Lourdes Brunini, diretora da Faculdade de Ciências da Saúde de São Paulo. “E a cirurgia plástica é capaz de reparar dores por danos psíquicos, como frustrações, rejeições e insatisfações. Às vezes, por causa de uma orelha de abano, uma criança pode sofrer o que chamamos de trauma estético, causado por exclusão, preconceito, perseguições e todo tipo de agressão psicológica. Isso gera complexos e abre feridas.” Nesse sentido, muitas cirurgias consideradas estéticas são, na verdade, reparadoras. “A plástica eleva a auto-estima, traz sentimento de conforto, alivia a dor psíquica, alimenta a esperança de melhor aceitação por si e pelos outros, aumenta a satisfação em relação a si mesmo e gera autovalorização”, resume a psicóloga. “Uma pessoa que não se ama fica sem motivação para viver, o que a leva a um quadro de apatia e depressão. E aí, sim, ela vai adoecer e o que era uma mera questão de aparência vira um caso médico.”
ESTÉTICA OU REPARADORA?
Os médicos preferem não fazer essa distinção, pois são definições que acabam se confundindo em muitos momentos. “A cirurgia que retira o excesso de pele do abdômen é considerada estética, mas a barriga caída pode provocar alergias e irritações de pele, além das dificuldades de convívio social e relacionamento sexual”, afirma a médica Deusa Pires.
Entre os tipos mais comuns de cirurgia plástica reparadora estão a reconstrução mamária; a supressão de tumores de pele (como o melanoma); o tratamento de queimaduras agudas e crônicas; a manipulação de cicatrizes; e os cuidados com deformidades dos membros. Para identificar o profissional certo, é importante procurar por cirurgiões-plásticos membros da SBCP. “Um bom especialista conversa muito com o paciente, não faz promessas e procura analisar a situação, não só do ponto de vista físico, mas também psicológico”, ensina Douglas Jorge.
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