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Edição 89 | EXPEDIENTE
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  Tudo por uma segunda vida
Ser outra pessoa, ter coisas que você não tem e dizer o que não tem coragem são propostas tentadoras de universos virtuais como o Second Life. Mas até que ponto toda essa fantasia pode mexer com a sua cabeça?

POR STELLA GALVÃO | ILUSTRAÇÃO BUSSADORI

Quem um dia já não sonhou ser um empresário famoso, um ícone pop mundial ou até mesmo o superman? Em Second Life, você pode ser e ter o que sempre quis. Dizer o que está preso na garganta. "Neste universo paralelo, a sua imaginação é o verdadeiro limite!" É exatamente assim que aquele que acessa o site www.secondlifebrasil.com.br é recebido, com promessas de uma nova vida moldada pela fantasia.

O recente fenômeno acompanha a onda tecnológica que envolve a exploração de recursos de entretenimento para as milhares de pessoas que acessam a cada fração de tempo, em escala planetária, a rede mundial de computadores. Febre do momento, o SL quer reproduzir a vida como ela é, mas com glamour e sem as neuroses do cotidiano. Já despontam, por exemplo, lojas, bancos, estúdios de TV, shows de rock e boates.

O Second Life foi lançado há quatro anos pela empresa norte-americana Linden Lab, mas estourou mesmo a partir de 2006, alcançando mais de seis milhões de cadastrados. A versão em português conta com mais de 230 mil residentes, como são chamados os que ingressam na condição de avatares, clones digitais, cuja forma e aparência são determinadas pelo interessado. Os donos do universo digital esclarecem: "não se preocupe se não ficar bom na primeira vez, você pode trocar sua aparência a qualquer hora". É cirurgia plástica instantânea e em tempo integral mesmo!

Universo paralelo
"As pessoas que se cadastram são mais do que internautas ou usuários. São residentes de um universo on-line onde é possível voar ou se teletransportar, trabalhar, fazer novos amigos, estudar, criar produtos e obras de arte, passear, namorar, fazer compras, vender, dançar, anunciar", explica Emiliano de Castro, diretor de marketing do Second Life Brasil. O fenômeno já foi abarcado até pelas telenovelas. Em junho, por exemplo, a rede Globo de televisão resolveu inovar e, em vez de oferecer uma festa real para lançar a sua nova novela Sete pecados, patrocinou uma balada no Second Life. Compareceram os avatares do autor e do diretor da novela e também dos personagens, neste caso uma redundância. Afinal, avatares já são personagens.

Várias empresas dedicam-se a lançar produtos nesse universo on-line. E não apenas por uma questão de imagem. Os avatares podem fazer compras no SL com o cartão de crédito emprestado dos humanos que os produziram. "É um mundo virtual em termos. À medida que esse avatar entra na loja da Nike e compra um tênis com o crédito nominal real e não com o nome avatar, há nesse momento uma duplicidade de personalidade", diagnostica o psicoterapeuta e psiquiatra José Thomé, coordenador do Departamento de Psicoterapia da Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP) e professor no Instituto Sedes Sapientae (PUC-SP).

E como fica a saúde mental?
Além da tremenda oportunidade de marketing e comércio, mundos paralelos virtuais podem simplesmente ser uma forma extra de diversão e de maior interação social, como avalia o psiquiatra Aderbal Vieira, coordenador do Ambulatório de Tratamento de Dependências Não Químicas do Programa de Orientação e Atendimento a Dependentes da Universidade Federal de São Paulo (Proad- Unifesp). É uma forma, também, de fantasiar desejos não satisfeitos. "Em uma sociedade de consumo como a que vivemos, as pessoas podem criar personagens com poder, sedução e beleza que estão longe de corresponder à vida real", explica o psiquiatra.

Por outro lado, como no mundo virtual o risco das ações desses 'clones' ter alguma conseqüência é muito menor, a proteção do anonimato pode ressaltar características pessoais, boas ou más. "Se o indivíduo é razoavelmente saudável aqui fora, ele apenas veste um personagem que pode até ser preconceituoso, mas deixa a fantasia de lado ao desligar o computador", observa o médico. Nesse aspecto, ele pondera, a criação de um avatar pode funcionar até terapeuticamente, porque a pessoa pode usálo para exorcizar seus monstros no ambiente virtual. Para José Thomé, da ABP, tais ambientes são uma forte evidência de que a experiência afetiva na relação humana está decaindo, com a permanência do desamparo e do isolamento social do ser humano. "Ninguém mais vai a festas, mas a eventos massificados", critica.

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