Tudo por uma segunda vida Ser outra pessoa, ter coisas que você não tem e dizer o que não tem coragem são propostas tentadoras de universos virtuais como o Second Life. Mas até que ponto toda essa fantasia pode mexer com a sua cabeça?
POR STELLA GALVÃO | ILUSTRAÇÃO BUSSADORI
O risco de dependência
Um dos pacientes do psiquiatra Cristiano Nabuco, do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo (HC-USP), resumiu assim o estágio em que se encontrava em relação a ambientes on-line: "a internet é meu antidepressivo virtual". É a tal dependência psicológica, demonstrada em relação a diversos artefatos tecnológicos, como os blackberry (misto de celular e palm top com acesso à internet), recursos que vão se somando e colaboram para criar mais ansiedade. "O risco é justamente que a pessoa se torne dependente ou usuário com pulsivo desses mundos virtuais, como forma de tentar conter a própria insatisfação e, eventualmente, uma depressão", alerta o médico que trabalha no Ambulatório de Transtornos do Impulso do HC-USP, onde são também tratados casos de uso exagerado da internet.
Esse tipo de dependência, ainda pouco descrita na literatura médica, é abordada basicamente com psicoterapia. No programa de 18 semanas criado no Instituto de Psiquiatria do HC, os dependentes aprendem a lidar com as frustrações e as expectativas que os levaram a esse grau de compensação via on-line.
Não se trata, conforme esclarece Cristiano Nabuco, de simplesmente condenar a novidade. "Não é só porque se usa a internet que a pessoa corre o risco de se viciar. Se fosse assim, todo barman seria alcoólatra, e não é o caso", compara. Ele observa, porém, com base em dados reais do grupo atendido no HC e no seu consultório, que a maioria dos usuários de ambientes virtuais procura, de fato, um refúgio para algo que não consegue vivenciar de modo satisfatório na vida real. E, segundo o médico, essa busca desenfreada em direção ao universo on-line se enquadra na categoria dos transtornos do controle do impulso - na qual são incluídos ainda o jogo, o sexo e as compras compulsivas, sem freios. "Não se trata de restringir o acesso, portanto, mas de devolver a perspectiva do autocontrole a esses pacientes."

UM ATRATIVO PARA QUEM?
Segundo especialistas, todo mundo é candidato a fascinar-se com a ilha da fantasia proposta por modelos de universo paralelo como o Second Life. "Por outro lado, os sites não teriam poder de exercer fascínio se as pessoas já não estivessem carentes", acredita Cristiano Nabuco. "Quem tem dificuldades de viver as relações é mais propenso a buscar guarita em um mundo fantasioso", afirma o psiquiatra Aderbal Vieira, coordenador do Proad. De modo geral, são pessoas muito tímidas, com baixa autoestima, síndrome do pânico e agorafobia que necessitam buscar contato com o mundo real. Se apenas usarem a internet como um recurso extra, ok. Mas... "Quem tem este perfil tende a exagerar no uso dessa espécie de escape da realidade", diz o especialista. É só imaginar um deprimido, que pega o restinho de ânimo que sobrou para entrar no Second Life. Será que ele melhora? Não, diz o médico, porque o problema só mudou de endereço.
GLOSSÁRIO SECOND LIFE
METAVERSO: é um ambiente virtual que mimetiza o mundo real.
SECOND LIFE: um metaverso, universo em três dimensões on-line.
AVATAR: é a representação de cada pessoa no Second Life. As
personagens virtuais têm rosto e corpo personalizados e interagem
com os outros residentes.
RESIDENTE: é o habitante do universo tridimensional on-line.
RL: sigla em inglês para "real life", ou vida/mundo real.
IN-WORLD: é a vida dentro do metaverso.

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