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Edição 105 | EXPEDIENTE
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  Feliz com as rugas que se tem
É fato. Aquele que aceita com bom humor as mudanças do tempo e cuida da aparência, sente-se mais confiante, conquista a admiração das pessoas ao redor, melhora sua qualidade de vida e vive mais

POR RENATA AFONSO
FOTOS ANDRÉ MOURA

A natureza é poderosa e mesmo que os especialistas descubram a melhor técnica de cirurgia plástica do mundo, ela ainda será insuficiente para barrar todas as modificações que acompanham o processo de envelhecimento natural. Portanto, no lugar de brigar com as rugas, os cabelos brancos, as manchas nas mãos e no rosto, a flacidez na pele, entre outras mudanças, o melhor mesmo é aceitá-las, de verdade e sem neuroses.

“Quem não faz isso abandona os projetos e ideais e corre o risco de entrar em depressão. A auto-estima é fundamental para quem já passou dos 60 anos”, acredita Mara Pusch, coordenadora da psicologia do projeto Afrodite da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), que tem o objetivo de resgatar a sensualidade e a feminilidade das mulheres mais maduras.

Mas aceitar a velhice não significa deixar de se cuidar. Os mais velhos também devem praticar exercícios, ter boa alimentação, conviver com os amigos e, por que não, cuidar muito bem da aparência. Cabelos sempre cortados, pintados, quando não se gosta dos fios brancos, barba feita, banho tomado, unhas em ordem e maquiagem, no caso das mulheres. “Quando a mulher entra na menopausa, ela passa a não se achar tão bonita, vai se desmotivando, o que não pode acontecer”, alerta Mara Pusch.

A vaidade sob medida vale a pena. Segundo especialistas, quem vive bem com o espelho, seja homem ou mulher, é saudável, desenvolve menos doenças, depende menos de remédios, vive mais e melhor.

Além disso, para a psicóloga Mariuza Pregnolato, de São Paulo, indivíduos que conseguem lidar melhor com a passagem do tempo acabam atraindo a admiração das pessoas — e isso faz um bem danado para o ego. “Um paciente idoso me confidenciou, certa vez, que quando não se cuida se acha um lixo. Mas quando está bonito e atraente, sentese confiante e essa atitude acaba despertando o interesse de quem está a sua volta”.

Já o geriatra Alexandre Leopold Busse, do Hospital das Clínicas, de São Paulo, diz que a auto-estima e a vaidade estão diretamente ligadas às relações sociais. Quem só fica em casa não tem motivação para se cuidar. Por isso, os passeios são aconselháveis. “A família pode convidar o idoso para sair. Visitar alguém, ir ao cabeleireiro, ao supermercado. Vale até uma consulta médica. É preciso arrumar uma desculpa para se arrumar”, aconselha.

Confira, a seguir, os depoimentos de quem já incorpora na prática todas essas recomendações médicas e que, por conta das atitudes positivas perante a vida, tem o espírito jovem e não aparenta a idade real.

“Quero estar sempre bonita, isso levanta o astral”
“Pode escrever aí que sou perua.” É assim que Magdalena Diciomo de Castro, de 74 anos, começa a entrevista. A dona de casa diz que tem cinco gavetas cheias de bijuterias. Gosta de usar pulseiras, anéis, colares, brincos. “Tudo escandaloso, exagerado”, ressalta. Base, sombra e batom são companheiros inseparáveis. “Até para limpar a casa faço maquiagem e coloco salto alto”, diz. Cirurgia plástica ela nunca fez. Tem medo. Mas usa cremes e outros segredos para esticar a pele.

“Coloco esparadrapo para puxar o olho e escondo atrás da peruca”, revela Magdalena. A dona de casa sempre pintou os cabelos, mas teve que parar com a tinta porque faz tratamento para queda. A saída foi usar peruca. Tem mais de dez modelos. E ela conta que já encomendou uma “igual ao cabelo da Ana Maria Braga”, a apresentadora da Rede Globo. Para ir até os bailes que freqüenta duas vezes por semana, dirige um carro conversível cor prata.

“Gosto de chamar a atenção”, diz Magdalena, que está viúva há 15 anos. Nas festas, é atração. Faz questão de ir bem produzida. “Não me incomodo com a velhice, mas quero estar sempre bonita. Levanta o astral. Quando estou triste, saio para comprar roupas e bijuterias”, revela.

“Pessoa arrumada provoca boa impressão”
Aposentado há uma década, Eduardo Gomes da Silva Neto, de 66 anos, não conseguiu ficar em casa. Não demorou muito, o ex-gerente de loja arrumou um emprego como vendedor. Eduardo também tem outra atividade. É músico. Há 22 anos toca teclado em festas, casamentos e em uma igreja católica em São Paulo, onde coordena um grupo de terceira idade. “Se ficasse só, em casa, estaria doente. Acho importante não ficar parado”, diz. Eduardo é pai de dois filhos e tem dois netos.

Casado há 41 anos, faz questão de mostrar para a esposa, Maria Lúcia, que continua romântico. Nunca deixou passar um dia dos namorados sem um presente ou um jantar.

“Esse cuidado um com ou outro faz bem, me deixa feliz”, admite. E essa mesma esposa admira e incentiva a vaidade do marido. Eduardo não tem vergonha em dizer que passa cremes, faz as unhas e que gosta de estar perfumado. No guarda-roupa, tem uma coleção de camisas. Conta com mais de 40 peças. “Pessoa bem-vestida e arrumada traz boa impressão”. Eduardo só não acha necessário fazer plástica ou mudar a cor dos cabelos, com alguns fios grisalhos. “É bom saber envelhecer, saber a idade que se tem. E acho que estou bonito assim”, diz.

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