Transgênicos na mira O biólogo MARCELO MENOSSI, professor do Departamento de Genética de Evolução e coordenador do Laboratório de Genoma Funcional da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e membro da Comissão para Assuntos de Biossegurança da Sociedade Brasileira de Genética
POR STELLA GALVÃO
VS: Há quanto tempo os transgênicos têm sido consumidos no mundo?
Marcelo: Há mais de dez anos. Aproximadamente, 70% dos alimentos processados contêm pelo menos um ingrediente derivado da soja que, no Brasil, pode ser transgênica ou dispor de microrganismos geneticamente modificados (MGM). Quando houver a liberação comercial do milho geneticamente alterado no país - e a comunidade científica espera que isso ocorra nos próximos meses -, esse número saltará para 90%. Pão, queijo, iogurte, cerveja e vinho, consumidos no país, possuem enzimas produzidas por MGM. Ou contêm bactérias e leveduras transgênicas que atuam na fermentação, na formação do sabor e aroma, bem como na preservação dos alimentos. Embutidos, como o presunto, também podem conter ingredientes geneticamente modificados, já que possuem proteína de soja em sua composição.
VS: Como saber se um alimento é geneticamente modificado?
Marcelo: No Brasil, a lei determina que essa informação esteja no rótulo, caso contenha mais de 1% de matériaprima geneticamente modificada. Trata-se do decreto 4.680/2003, em vigor desde março de 2004. A rotulagem garante ao consumidor o direito à informação e à opção de escolha na hora da compra. Mas há diversas críticas ao formato de rotulagem proposto no decreto. O símbolo adotado - um triângulo amarelo com um 'T' no meio - inibe o consumidor, confundindoo ainda mais. A sugestão, mais corrente, é a de que a informação sobre a existência de um elemento geneticamente modificado seja incluída na lista de ingredientes do produto, como acontece na Europa.
VS: Que alimentos modificados já são cultivados com regularidade?
Marcelo: Atualmente, o mundo cultiva variedades resistentes ao ataque de pragas e herbicidas. Os transgênicos disponíveis são: soja, milho, algodão, canola, abobrinha, papaia, berinjela, batata, alfafa e arroz. O Brasil é o terceiro maior produtor de transgênicos, com 11,5 milhões de hectares de soja e algodão geneticamente modificados. O país só perde para os Estados Unidos e Argentina. Segundo o Serviço Internacional para a Aquisição de Aplicações em Agrobiotecnologia, 22 países dos cinco continentes cultivam plantas transgênicas, somando 102 milhões de hectares em 2006. Outras 29 nações aprovaram a importação de variedades geneticamente modificadas para o consumo humano e animal.
VS: O que são transgênicos biofábricas ou biorreatores?
Marcelo: Observou-se que alguns legumes, frutas e verduras transgênicas funcionam como excelentes fabricantes ou condutores de enzimas, vacinas, anticorpos e proteínas terapêuticas para o setor médico, a indústria farmacêutica e para a saúde animal. Foram essas características que, aliás, permitiram a produção de insulina e outros hormônios. Essas substâncias recombinantes de origem vegetal têm demonstrado estabilidade, oferecendo vantagens de estocagem e transporte. São mais baratas e podem ser produzidas em grande escala. A comunidade científica vem buscando maneiras mais simples e econômicas de obter tais recursos. Só os EUA já estudam 390 moléculas recombinantes. Muitas plan tas têm sido empregadas com este objetivo. O arroz, o trigo, o milho, a alfafa, a batata, a ervilha, a canola, a soja, o tabaco e o tomate já ganharam essa nova atribuição. São espécies produzidas em laboratório. Na Embrapa Recursos Genéticos e Biotecnologia, pesquisadores estão desenvolvendo, em parceria com a Universidade de São Paulo (USP), amostras de alface e tomate que combatem a diarréia. A semente do milho, por sua vez, é alvo de um estudo da Unicamp para criar uma vacina comestível contra a coccidiose, doença de maior impacto econômico na produção de aves.
VS: O que são os 'biofortificados'?
Marcelo: São a próxima geração de alimentos transgênicos, só que geneticamente modificados para conter mais pro priedades nutricionais. Os biofortificados estarão no mercado em alguns anos. Cientistas da Ásia, da Europa e dos Estados Unidos vêm desen volvendo variedades transgêni cas de grãos, frutas e legumes enriquecidos de nutrientes que prometem amplificar as opções de dieta alimentar e auxiliar na prevenção de tumores e de doenças cardiovasculares, materno-infantis, gastrointestinais e até oculares. Entre as novidades estão: arroz rico em ferro; morangos com vitamina C; mandioca, batata e arroz enriquecidos com vitamina A; óleos de canola e soja com grandes quantidades de gordura monoinsaturada (gordura do bem); trigo com maior concentração de ácido fólico (importante para o desenvolvimento do cérebro dos bebês); milho e soja com níveis elevados de aminoácidos; e batatas ricas em proteína.
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