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Edição 105 | EXPEDIENTE
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  Atenção ao excesso de leite
Apreciado há séculos pelo homem, esse alimento está na berlinda. Especialistas discutem até que ponto seu consumo previne osteoporose ou causa doenças

POR RENATA AFONSO
ILUSTRAÇÃO BUSSADORI

A jornalista Sonia Hirsch, estudiosa de alimentação e medicina natural, em seu livro Só para mulheres (Ed. Corre Cotia, 1995) já falava dessas proteínas e de sua ação no corpo humano: “... difícil de digerir, a proteína do leite sobrecarrega o sistema imunológico e na melhor hipótese inflama amígdalas ou adenóides, dá sinusite, catarro, resfriados constantes, gases e prisão de ventre”. No texto, ela cita ainda outro problema: os hormônios e antibióticos que a vaca tomou e, por tabela, são ingeridos também pelo homem. “...Por se destinar à formação de um animal de 800 quilos, quadrúpede com chifres, pêlo e rabo, a proteína do leite de vaca tem uma composição bem diferente da que nós precisamos para ser humanas”, cita a jornalista.

É BOM PARA CRIANÇAS
  Sim, porque é importante para o desenvolvimento ósseo. A Organização Mundial da Saúde (OMS) recomenda o leite materno até o sexto mês de vida como alimento único. O médico Hamilton Henrique Robledo, pediatra do Hospital e Maternidade São Camilo, em São Paulo, diz que, a partir desse período, o bebê pode consumir sucos, frutas e as primeiras refeições com sal. Dos dois aos três anos de idade, os pais devem oferecer leite de quatro a cinco vezes ao dia. A partir dos três anos, dois ou três. Aos sete, um copo apenas.
   

Antonio Carlos Ruffolo, geriatra e especialista em terapia ortomolecular, da clínica Belmonte, em São Paulo, também não é a favor do alimento, mas faz propaganda de seus derivados. “O líquido é o vilão, mas os produtos que vêm dele são fantásticos. O iogurte e o queijo branco têm grande quantidade de cálcio e não fazem mal à saúde”, diz.

Foi somente após a revolução agrícola e a domesticação dos animais que e o consumo de laticínios se tornou possível e virou hábito entre nós. Para o pesquisador português Pedro Bastos, esses derivados também deveriam estar no banco dos réus. Apesar de possuírem um baixo índice glicêmico (não provocam um aumento pronunciado da glicemia — as taxas de açúcar no sangue), eles turbinam a liberação de insulina pelo pâncreas, o que pode desencadear o diabetes tipo 2. “Pelo menos cinco estudos demonstram isso”, afirma.

O outro lado
A afirmação de Bastos é polêmica. Estudo recente da Universidade de Tufts, nos Estados Unidos, sugere justamente o contrário. Ou seja, que o consumo de leite conseguiria reduzir em 15% os riscos de uma pessoa desenvolver o diabetes tipo 2. Os pesquisadores americanos acreditam que os nutrientes desse alimento podem afetar a capacidade do corpo de produzir ou utilizar insulina. E não é só. Uma outra pesquisa do Centro Federal de Pesquisa em Nutrição de Kiel, na Alemanha, afirma que uma proteína do soro do leite auxiliaria a ação da insulina.

Na verdade, as opiniões e estudos divergem muito. Profissionais como Ari Stiel Radu, professor assistente do Departamento de Reumatologia do Hospital das Clínicas, eleva a bebida à categoria dos alimentos indispensáveis. Além das razões nutricionais, ele aponta uma financeira: o custo cabe no bolso de qualquer um. “Esse alimento é uma importante fonte de cálcio e, às vezes, a única na dieta da população”.

Um copo tem 246mg – praticamente 25% da quantidade que deve ser ingerida diariamente. “O mineral é importante para auxiliar a contração e o relaxamento muscular e também para o fortalecimento dos dentes e dos ossos”, confirma a nutróloga Daniela Hueb, de Bauru (SP).

O cálcio também auxilia na coagulação sangüínea, o que é fundamental para o processo de cicatrização. “Esse mineral ativa enzimas como a ATPase, que ajuda a queimar calorias, por isso também pode colaborar com o emagrecimento”, diz a nutróloga. Pesquisa realizada nos Estados Unidos mostrou que um grupo de mulheres emagreceu até sete quilos ao fim de dois anos, depois de ingerir 1900 calorias e a média de três copos de leite por dia.

Em pelo menos uma questão a maioria dos especialistas concorda: o que faz mal não é exatamente o leite, mas a quantidade desse alimento que é consumida. Até porque hoje há uma grande oferta de produtos industrializados desenvolvidos a partir dele e o consumo tem sido excessivo. Além disso, há pessoas que apresentam intolerância à lactose, o açúcar da bebida, ou alergia à sua proteína (veja boxe na página ao lado). Nesses casos, o ideal seria evitá-lo.

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