Transtorno do pânico não escolhe idade Desencadeado por razões físicas, psíquicas e emocionais, o problema popularmente conhecido como síndrome do pânico é sério, na maioria das vezes grave, e necessita de tratamentos combinados
POR ALCIDÉA DE OLIVEIRA
Alguma vez você já sentiu dor no peito, calor e suor frio ao mesmo tempo, dificuldade para respirar, e a nítida sensação de que vai morrer sem motivo algum? Já foi parar na emergência de um hospital e depois de uma bateria de exames ainda ouviu o médico dizer que não havia nada de errado com você? Na verdade havia algo de errado sim, mas nenhum exame iria revelar. A crise do pânico é diagnosticada por um conjunto de sintomas que, depois de uma primeira crise, em geral volta a se repetir e se transforma em transtorno do pânico — um mal que não escolhe idade nem sexo e é mais comum do que se imagina. Segundo o National Institute of Mental Health, dos Estados Unidos, 2,7% dos norte-americanos apresentam o distúrbio, que também atinge crianças, embora de forma diferente — e por isso sem estatísticas oficiais. Primeiro porque crianças têm mais dificuldade de explicar o que sentem, segundo porque estes se confundem com outros distúrbios da ansiedade, como fobia social e fobia escolar.
DEPRESSÃO E PÂNICO. QUAL A DIFERENÇA? |
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Embora o transtorno do pânico ocorra muitas vezes após um período de depressão, Bernard Rangé informa que são dois processos diferentes e que um necessariamente não irá levar ao outro. “A depressão está ligada ao sentimento de perda — o paciente tende a desenvolver uma visão negativa do mundo, de si próprio e do futuro”, diz o especialista. No transtorno do pânico, a pessoa paralisa porque seu ‘sistema de alarme’ dispara, mesmo que o perigo não seja real, provocando sensações que ela é incapaz de controlar, embora fisicamente não haja problema algum. |
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De acordo com Bernard Rangé, doutor em Psicologia e professor de Pós- Graduação em Psicologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), embora haja um aumento da incidência do transtorno do pânico entre jovens adultos nos últimos anos, o número total de casos é mais ou menos estável, atingindo em média 1,5% a 2% da população do país.
“A diferença é que hoje conhecemos os sintomas, sabemos o que define o transtorno e temos condições de tratálo”, diz o especialista, explicando que o termo síndrome (criado por um psiquiatra alemão, o primeiro a identificar os sintomas em 1967) foi substituído por transtorno nos anos 80, a partir da reformulação do sistema de classificação de doenças, nos Estados Unidos, com base em características semelhantes de problemas e causas.
Outro dado destacado por Bernard Rangé, é que a faixa etária mais atingida é a que está com idade entre 18 e 30 anos — período da vida em que a pessoa tem que se lançar e competir no mercado de trabalho, assumir para si as responsabilidades de sua própria carreira, seu sustento e sua independência, longe da proteção da família.
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“É um momento em que as pessoas ficam expostas aos novos desafios da vida e isso gera medo e insegurança normais. Em alguns casos, porém, favorece o surgimento dos transtornos de ansiedade que, associados a outros fatores, podem levar às crises do pânico”, explica o estudioso.
“Foi como estar num filme Sextafeira 13”
“Eu estava com cerca de 40 anos quando comecei a ter sintomas estranhos. Parecia que os carros passavam mais depressa na rua, me assustava com facilidade... fui ficando como num estado de slow motion. Um dia estava no trabalho e senti um pavor repentino, pedi ajuda a uma colega e fui direto para casa. Cada vez menos quis sair de casa. Era como estar num filme de ‘Sexta-feira 13’, sem saber de onde viria o próximo susto. Consultei uma neurologista e ela me disse que meus sintomas eram de síndrome do pânico. Eu nunca tinha ouvido falar nisso e nem ido a um psiquiatra. Mas foi para quem ela me encaminhou. O psiquiatra me explicou que nosso cérebro tem, entre tantas funções, a de alarme e dispara quando há perigo real. No caso da síndrome, este alarme fica ‘com defeito’, dispara sem quê nem porquê, nos colocando num constante estado de alerta. Indicou-me remédios e aconselhou uma psicoterapia.. Entrei de licença médica no trabalho por mais de um ano. O tratamento, também com remédios, durou uns dois anos. Engordei muito, porque colocava minha ansiedade na comida e, também, alguns antidepressivos facilitam o ganho de peso. Mas o tratamento me fez dispensar mais tempo comigo mesma, passei a dar valor à qualidade de vida, coisa que antes não me preocupava. Aprendi que temos limites e é sábio respeitá-los. Acredito que remédio, psicoterapia e espiritualidade foram a solução para o meu caso. Hoje não tomo remédios, mas fico atenta, pois as recaídas são comuns. De fato, tive uma recaída, mas bem menos aguda e aqui estou, firme e forte.
(Derly, 48 anos, funcionária pública)
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