Meditar a ciência descobre os benefícios A vantagem da meditação para o equilíbrio físico e mental sempre foi difundida pelas filosofias orientais. Mas nunca, como ultimamente, tantas áreas da saúde têm comprovado (e incorporado) sua eficácia
POR STELLA GALVÃO
Muitas técnicas
Para meditar, uma pessoa não precisa necessariamente sentar em posição de iogue, com as pernas cruzadas, olhos fechados e atitude interiormente contemplativa. Há tantas técnicas, como opções musicais para acompanhar essa sessão de auto-transporte. Menezes, a neurologista, dá dicas preciosas para meditadores de primeira viagem: "recolha-se em uma posição confortável (não relaxada, pois não é para dormir) e foque sua atenção em uma imagem (real ou mental) e, sempre que perceber que está divagando sobre outras coisas, afaste do pensamento essa outra coisa e volte a focar o objeto escolhido. Faça isso quantas vezes for necessário. Se você tentar meditar por 10 minutos e achar que só conseguiu focar a atenção por poucos segundos, acredite, você já meditou!"
A respiração é um elemento chave na meditação, segundo a psicóloga Ferreira. Um dos caminhos possíveis para aqueles que nunca adentraram nesse terreno, diz ela, é começar pela ioga, para aprender técnicas de respiração e adquirir a chamada consciência corporal. A persistência também é muito importante para se alcançar os benefícios neurofisiológicos e chegar ao ponto de meditar livremente. Neste estágio, diz Ferreira, "há a perfeita compreensão de que não pensar em nada é não pensar em nada mesmo".
Outra dúvida dos não iniciados é quanto tempo meditar. "O primeiro passo consiste em estabelecer um momento, todos os dias, para a prática", sugere o obstetra e estudioso Roberto Cardoso. Para quem está começando, bastam 15 a 20 minutos, marcados pelo tempo de uma música utilizada, ou pelo toque de um relógio.
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CÉREBRO ATIVO, CÉREBRO 'SEDENTÁRIO'
Todas as mudanças sugeridas pelos estudos sobre a meditação entram no terreno da neuroplasticidade - a capacidade do cérebro de alterar-se estruturalmente quando bem estimulado. A idéia, comprovada por vários experimentos com imagens, é a de que as células nervosas, os neurônios, ficam mais fortalecidas quanto mais utilizadas, como ocorre com nossos músculos. Ou seja, há uma diferença substancial entre um cérebro ativo e um cérebro, digamos, sedentário. Vários expoentes das neurociências em todo o mundo consideram a prática da meditação como um atalho para reconquistar o equilíbrio fisiológico do organismo por meio da 'ginástica' dos intrincados circuitos cerebrais. Como exemplifica a neurologista Denise Menezes: "quem está reagindo às situações corriqueiras da vida como se fossem uma questão de vida ou morte, conquista com a meditação o relaxamento e a tranqüilidade necessária ao bem viver. Já a pessoa que está apática, sem reagir prazerosamente às situações favoráveis da vida, a prática pode trazer essa energia, ativando sensações e sentimentos positivos". |
BUDISMO E NEUROLOGIA
Tradicionalmente ligada às religiões orientais, a meditação chegou à medicina ocidental por meio da associação entre a autoridade máxima do budismo tibetano, o Dalai Lama, e do expoente das neurociências, o biólogo chileno Francisco Varela (já falecido). Assim nasceu o Mind and Life Institute, com o objetivo de estimular novas pesquisas e reunir a elite dos estudiosos do assunto, como Richard Davidson, neurocientista e pesquisador da neuroplasticidade da Universidade de Wisconsin (EUA). Kozasa é uma das presenças brasileiras constantes no Mind and Life. "Não se está falando mais de algo excepcional, mas de uma prática que já foi incorporada por muitos serviços de saúde públicos, como já se vê na cidade de São Paulo", afirma ela. Em abril, a pesquisadora foi uma das poucas convidadas para um encontro do Instituto na casa do Lama, na Índia, onde ele vive exilado. O evento discutiu temas que englobam a fisiologia cerebral, práticas de saúde que busquem maior humanização, ativem a neuroplasticidade, enfim, tragam benefícios para o circuito mente-corpo que resultem em uma saúde mais duradoura.
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