Pane cerebral Dados do Ministério da Saúde alertam: o acidente vascular cerebral é hoje a doença que mais mata no Brasil. Para se prevenir, é fundamental reconhecer os primeiros sintomas
POR STELLA GALVÃO
Hipertensão arterial tem se revelado a principal causa dos acidentes vasculares. O diabetes e as dislipidemias (alterações dos níveis de colesterol e de triglicérides) são também fatores de risco importantes, segundo o neurologista Eli Evaristo, do corpo clínico dos hospitais das Clínicas (HC) da Faculdade de Medicina da USP, Sírio Libanês e Oswaldo Cruz. Tabagismo, vida sedentária, obesidade e várias doenças do coração (problemas no ritmo e nas válvulas cardíacas ou infarto do miocárdio) também têm forte parcela de contribuição para a interrupção do fluxo sanguíneo em direção ao cérebro.
Cigarro e outros vilões
Um estudo publicado em meados de agosto de 2008 pela revista científica norte-americana Stroke concluiu que jovens mulheres fumantes têm o dobro do risco de sofrer um AVC em comparação com as que não fumam. Foram avaliadas fumantes na faixa etária entre 15 e 49 anos de idade, cujo risco mostrou ser 2,6 vezes maior do que aquelas que nunca colocaram um cigarro na boca. O estudo foi conduzido por pesquisadores da Universidade de Maryland. O risco é proporcional ao número de cigarros tragados. Entre 21 e 39 por dia aumenta a probabilidade do derrame em 4,3 vezes, enquanto aquelas que superam os 40 cigarros diários têm 9,1 mais chances de sofrer o problema.
De acordo com Eli Evaristo, diversos estudos têm demonstrado a probabilidade de reduzir em até 50% o risco de um AVC se observadas as seguintes medidas: parar de fumar; fazer atividades físicas; controlar o peso; ter uma alimentação rica em frutas e vegetais, com menor nível de sal, gordura e açúcar; consumir com moderação bebidas alcoólicas e fazer exames periódicos de controle da glicemia e dos níveis de colesterol. O estresse, componente indissociável da vida nas grandes cidades, também é relatado por grande número de pacientes que sofreram os efeitos desse acidente. No caso do cigarro, reduzir o número de baforadas, segundo o grupo da Universidade de Maryland, já traz benefícios.
Tempo é cérebro vivo
Quanto mais tempo passa após o início do acidente vascular cerebral, mais porções de tecido cerebral morrem (entenda todo o processo no quadro Como ocorre o AVC). O ideal é que uma vítima desse problema seja atendida em no máximo 3 horas após a manifestação dos primeiros sintomas. No Brasil, as estimativas são de que a maioria leva até 12 horas para receber alguma forma de assistência. Problemas de organização do sistema de saúde também podem explicar essa demora, assim como a dificuldade para identificar um derrame que está em andamento. "É preciso haver uma estrutura médica organizada para atendimento do AVC na emergência hospitalar com fluxo rápido para reconhecimento dos sintomas, realização dos exames e início do tratamento", explica o neurologista Eli Evaristo.
A velocidade do início do tratamento é tão decisivo, no caso do AVC, que neurologistas norte-americanos cunharam a expressão time is brain.

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Ou seja, quanto mais rápido for o atendimento, mais chance há de poupar outras porções cerebrais potencialmente afetadas pelo déficit sanguíneo. Assim, a rapidez do socorro determinará a extensão dos danos e do comprometimento funcional futuro.
Reconheça os sintomas
Um dos motivos apontados pelos médicos para a falta de atendimento rápido é a dificuldade em reconhecer os sintomas, até mesmo por sua grande variação. De modo geral, AVC provoca alterações motoras, assim como dormência e formigamento que afetam apenas um lado do corpo. "A pessoa pode sentir ainda súbita fraqueza muscular ao segurar um objeto, mexer a mão, perna ou rosto. Podem ocorrer também alterações da visão como redução do campo visual, ou enxergar um lado meio nebuloso ou escuro ou, até mesmo, a perda total da visão de um dos olhos", descreve Eli Evaristo.
Outro sintoma comum é a alteração na fala. Os familiares notam que a fala do paciente se tornou arrastada ou percebem sua dificuldade de articulação ou de expressão. Ele sabe o que quer dizer, está compreendendo, mas, na hora de expressar-se, não consegue fazê-lo. "É importante saber que os sintomas dos acidentes vasculares se instalam subitamente. A pessoa foi dormir bem e acordou com um problema motor, por exemplo." Dor de cabeça, vômitos ou perda de consciência podem ocorrer ou não, e são mais comuns nos quadros hemorrágicos do que nos isquêmicos.
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