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Edição 106 | EXPEDIENTE
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  A emergência como ela é
Séries médicas, como House, ER e Grey's Anatomy, nunca estiveram tão na moda. Mas, apesar de todo o sucesso, elas dividem a opinião dos profissionais da área

POR ANDRÉ BERNARDO

Médico ou monstro? É a pergunta que alguns médicos se fazem após assistir a um dos episódios de House (Universal Channel). O protagonista que dá título à série, o infectologista Gregory House, interpretado pelo ator Hugh Laurie, é do tipo "ame-o ou deixe-o". Sarcástico e viciado em analgésicos, não é muito de conversar com os pacientes. Pior: vive soltando pérolas do tipo: "Mentiras são como as crianças: apesar de inconvenientes, o futuro depende delas". Mesmo assim, é capaz de solucionar os diagnósticos mais intrigantes.

Entre os seus "colegas de profissão", a personagem desperta sentimentos contraditórios. "House tem um raciocínio clínico muito refinado porque está acostumado a investigar doenças raras. Às vezes, é obrigado a resolver verdadeiros quebra-cabeças", elogia o geneticista Salmo Raskin, presidente da Sociedade Brasileira de Genética Médica. "Este é um ótimo exemplo de caricatura. Um médico agindo daquela maneira na sociedade americana já estaria preso ou banido da profissão há muito tempo", rebate o clínico-geral Luiz Fernando de Barros Correia, chefe do Setor de Emergência do Hospital Samaritano, no Rio de Janeiro.

O seriado House é apenas o mais recente exemplar de um gênero que, diga-se de passagem, vai muito bem, obrigado. O mais famoso deles, ER (Sony), está com os dias contados. Já exibido no Brasil com o título Plantão Médico, se despede do público após 15 anos no ar. ER se vai, mas o público aficcionado não precisa sofrer um ataque de nervos. Há outros representantes, como Grey's Anatomy, Scrubs (ambos exibidos pela Sony) e In Treatment (HBO). O gênero, ao que parece, terá vida longa. Mas, e os médicos, o que pensam? As séries médicas retratam fielmente o dia-a-dia da profissão? Ou apenas distorcem a realidade?

CRÍTICAS AO GÊNERO

Um recente estudo da Organização Médica Colegial (OMC) - uma espécie de Conselho Federal de Medicina da Espanha - analisou alguns episódios de House, ER e Grey's Anatomy e emitiu um parecer desfavorável. Segundo a organização, essas séries oferecem "uma imagem distorcida da realidade" ao criarem "falsas expectativas nos pacientes" e promoverem "cirurgias e tratamentos desnecessários". Na Itália, a Federação Nacional de Faculdades de Medicina foi ainda mais longe. A presidente da instituição, Annalisa Silvestro, defendeu o fim da transmissão das séries House, ER, Grey's Anatomy e Scrubs. A justificativa é de que os episódios estão repletos de "erros médicos" e "detalhes equivocados".

No Brasil, o coordenador-geral de Urgência e Emergência do Ministério da Saúde, Clésio Mello de Castro, afirma que essas séries ajudam a humanizar a figura do médico. "O fato de mostrar a dura rotina de um plantão faz o público perceber que o médico é um ser humano comum, que tem limitações e depende de recursos para atuar", acredita. Mas pondera que esses seriados podem passar a impressão de que todas as unidades hospitalares dispõem dos recursos tecnológicos mostrados na tevê, como aparelho de Ressonância Nuclear Magnética. "Não é raro a população leiga cobrar estas condutas em situações de insucesso", lamenta Castro.

Em ritmo de adrenalina
No pronto-socorro de um hospital público, médicos e enfermeiras se esforçam ao máximo para salvar a vida de um paciente. A frase acima bem que poderia se referir a qualquer uma das séries citadas nesta matéria, mas diz respeito ao programa E24, exibido pela Band todas as terças-feiras às 22h15. No caso, os médicos e as enfermeiras em questão são profissionais da área. A proposta é acompanhar a movimentação quase sempre frenética das equipes do Corpo de Bombeiros e do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (SAMU) de São Paulo. Para Marcelo dos Santos Soares, ex-chefe de Emergência do Hospital Estadual Getúlio Vargas, quem não está acostumado à rotina médica pode considerar o E24 um pouco agressivo. "No atendimento a politraumatizados, algumas manobras têm que ser feitas rapidamente. Num curto intervalo de tempo, você tem que verificar se não há fraturas, fazer a intubação, estancar o sangramento e imobilizar o paciente. Em alguns casos, eles reagem com agressividade por estarem desorientados", observa. Segundo o diretor do programa, Mariano Feijoo, uma das principais preocupações é justamente não exagerar. "Reconheço que é difícil não parecer sensacionalista ao mostrar um acidente de carro. Mas temos sempre em mente que não podemos ser agressivos com o telespectador", justifica.

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