Os novos transtornos alimentares
Ortorexia e Drunkorexia A fixação por comidas saudáveis e o uso do álcool para ajudar a emagrecer são distúrbios alimentares emergentes, que refletem a preocupação excessiva com o corpo
Por Ivonete Lucirio
Dois transtornos juntos
Se os ortoréxicos não têm como foco a silhueta, o mesmo não se pode dizer de quem sofre de drunkorexia, termo de origem inglesa para denominar quem usa o álcool para ajudar a controlar o peso. É também chamado de ebriorexia ou alcorexia. "Trata-se, na verdade, de uma comorbidade. Ou seja, a associação de duas doenças que são o distúrbio alimentar e o alcoolismo", explica Maria Clara Mansur, presidente da Associação Brasileira de Transtornos Alimentares (Astral), no Rio de Janeiro.
A drunkorexia costuma acometer quem sofre de anorexia nervosa: a pessoa bebe em grande quantidade para ficar anestesiada e perder o apetite |
A drunkorexia se manifesta principalmente de duas formas. A primeira está associada à bulimia. "A pessoa come demais e depois usa o álcool para provocar o vômito", descreve Maria Clara. Ou ainda bebe para se sentir entorpecida e diminuir a culpa por ter comido em excesso. "É uma forma bastante comum da doença, já que tanto a ingestão de comida quanto a de bebida são um tipo de compulsão, nesse caso".
A segunda forma da drunkorexia costuma acometer quem sofre de anorexia nervosa. A pessoa bebe em grande quantidade para ficar anestesiada e perder o apetite. É esse o perfil que está sendo representado por Renata, personagem da atriz Bárbara Paz na novela Viver a Vida, da Rede Globo. "Nesse caso fictício encontramos uma pessoa que ao mesmo tempo tem uma busca obsessiva pelo corpo e consome álcool em excesso. Ela ainda nega esses fatores e o prejuízo social, cultural e físico que a doença provoca", descreve Eliane Carbone.
"Não é possível dizer o que vem antes, a anorexia ou o vício pelo álcool", diz o psiquiatra Hamer Palhares Alves, coordenador da Rede de Apoio aos Médicos da Escola Paulista de Medicina (EPM). "Depende da situação, mas o fato é que é comum essas duas doenças andarem juntas", diz Palhares. Segundo uma pesquisa feita com 80 pacientes do Programa de Atenção à Mulher Dependente Química, do Instituto de Psiquiatria da Universidade de São Paulo (IPq/USP), 56% das mulheres dependentes de álcool ou droga em tratamento apresentavam também algum transtorno alimentar.
Sueli* começou a apresentar os primeiros sinais de anorexia nervosa aos 14 anos. Chegou a pesar 44 quilos e estava sempre insatisfeita com seu corpo. Com 17 anos ingressou na faculdade e passou a ingerir álcool em excesso. A princípio a situação se mostrou bastante conveniente já que, embriagada, não tinha fome. Mas depois de várias quedas - provocadas pela fraqueza e pelo álcool - foi levada pela mãe para iniciar um tratamento médico. Hoje ela está com 20 anos e depois de três anos usando medicamento contra a compulsão por álcool e para as crises de abstinência, curou-se do alcoolismo. A anorexia ainda está sendo tratada com acompanhamento psicológico, mas Sueli já está com 56 quilos e engordando sem a culpa que a acompanhou durante sua adolescência.
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