Os novos transtornos alimentares
Ortorexia e Drunkorexia A fixação por comidas saudáveis e o uso do álcool para ajudar a emagrecer são distúrbios alimentares emergentes, que refletem a preocupação excessiva com o corpo
Por Ivonete Lucirio
Você tem medo dos alimentos transgênicos? Treme só de pensar que a carne do churrasco possa estar contaminada com germes? Nas prateleiras do supermercado escolhe apenas produtos orgânicos? Essas preocupações são normais. Mas, quando excessivas, podem comprometer a rotina e o bem-estar da pessoa. Embora ainda não seja classificada como um transtorno psiquiátrico, a ortorexia - como se chama essa apreensão exacerbada em comer apenas alimentos saudáveis - vem se tornando cada vez mais frequente. Ao lado da drunkorexia - nome dado ao uso de álcool para o controle de peso -, formam a dupla de novos transtornos alimentares.
Juntas, as duas são um reflexo, ainda que indireto, das campanhas feitas pela mídia, pelas autoridades e, inconscientemente, até por amigos, por uma alimentação saudável e pela exaltação do corpo perfeito. Não que essas campanhas, sozinhas, possam desencadear o problema. "Atribuir ortorexia à onda de produtos naturais que vem sendo lançados, como se fosse sua causa exclusiva, seria o mesmo que dizer que o culto ao corpo é a única causa dos transtornos alimentares", diz a psicóloga Fernanda Kalil, especialista em Transtornos Alimentares e coordenadora de cursos de extensão em Transtornos Alimentares na Faculdade Fead, em Belo Horizonte (MG). "Todos nós estamos expostos à moda da alimentação correta e do corpo perfeito, mas nem todos ficamos obcecados com essa ideia, só as pessoas que apresentam uma tendência ao desequilíbrio", lembra. Mulheres são muito mais vulneráveis, de modo geral, e representam 90% dos casos.
Medo da comida
A ortorexia foi descrita pela primeira vez pelo médico americano Steven Bratman, autor do livro Health food junkies (em uma interpretação livre, "Viciados em comida saudável", ainda sem tradução para o português) em 1997. Entre os principais sintomas estão passar horas no supermercado lendo os rótulos dos produtos para saber se há conservantes ou outra substância considerada nociva à saúde, e escolher exclusivamente alimentos orgânicos, macrobióticos e integrais. "A pessoa começa a recusar convites para encontros sociais como almoços e jantares. Assim, evita se expor aos alimentos dos quais não pode controlar a origem", avalia Eliane Domingues Carbone, psicóloga clínica especializada em Distúrbios Alimentares. "O ortoréxico confia apenas nos alimentos que ele mesmo cozinha, porque só assim é possível conhecer os ingredientes e a forma de preparo do prato", completa. Além disso, gasta boa parte do dia pensando em comida, porque não mede esforços para comprar os alimentos que considera adequados.
Normalmente, os ortoréxicos não procuram ajuda médica. "A maioria acha sua preocupação legítima. Há pouco tempo uma nutricionista me encaminhou o caso de um paciente. Ele me contou que, durante a semana, comia apenas alimentos de qualidade, sem conservantes, sem aditivos. Mas no final de semana tinha vontade de comer uma fatia de doce. Chamava isso de 'descontrole alimentar'. Mas ele se orgulhava de ser tão disciplinado e cuidadoso com a própria saúde. Não permaneceu no tratamento", conta Fernanda Kalil. A preocupação principal dos ortoréxicos não é a perda de peso, mas manter o organismo limpo, consumindo apenas alimentos absolutamente saudáveis. Mas como ingerem uma quantidade indevida de calorias, é comum ficarem muito magros.
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