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  Nutrigenômica: uma dieta só para você
A ciência já começa a usar dados do mapeamento genético humano para criar cardápios personalizados. Além de ajudar no emagrecimento, o recurso pode prevenir e tratar doenças identificadas nos genes de cada indivíduo

Por Ivan Alves

Há cerca de dez anos, pesquisadores estudam a interação entre o genoma humano e os nutrientes dos alimentos, com o objetivo de promover a saúde por meio de uma dieta geneticamente personalizada. Esta nova e promissora ciência é denominada Nutrigenômica. Por causa dela, em um futuro próximo, quando você for consultar um médico ou um nutricionista, deverá apresentar o seu mapa genético. Imagine, então, o quanto precisos e eficazes serão os diagnósticos e os tratamentos propostos por esses especialistas, depois de terem checado, nesse documento, como o seu metabolismo e todo o seu organismo responde, exatamente, a cada nutriente ingerido.

Munidos desses dados, eles poderão prescrever uma dieta exclusiva, para você emagrecer sem muito esforço, ser mais ativo nas tarefas do dia a dia e, de quebra, não desenvolver câncer, diabetes, doenças cardiovasculares... "A boa notícia é que o caminho para chegar ao cardápio perfeito está bem próximo. Isso será uma realidade em alguns anos, graças aos avanços desta ciência", prevê Lucia Regina Ribeiro, coordenadora da Rede Brasileira de Nutrigenômica e professora do Programa de Pós-Graduação em Patologia da Faculdade de Medicina da Universidade Estadual Paulista (Unesp), em Botucatu, SP.

Foto: Fabio Mangabeira e Shutterstock

AFINAL, O QUE É ISSO?

A Nutrigenômica considera os estudos de interação funcional e dos componentes dos alimentos com o genoma, no nível molecular, celular e sistêmico, e tem por finalidade auxiliar a prevenção e o tratamento de doenças, por meio da alimentação. "Essa ciência sugere que todas as soluções para se viver mais e melhor estão em um cardápio alimentar capaz de interferir na atuação dos genes de cada pessoa. Como o genoma de cada indivíduo é único, cada pessoa terá uma dieta personalizada", indica Lucia. Na prática, os alimentos passariam a ser receitados, literalmente, como remédios. "Porém, para que isso se torne realidade, é preciso, antes, que se entenda melhor de que forma os compostos bioativos dos alimentos interagem com nosso genoma."

ESTA CIÊNCIA SUGERE QUE O CAMINHO PARA VIVER MAIS E MELHOR ESTÁ EM UM CARDÁPIO PERSONALIZADO CAPAZ DE INTERFERIR DIRETAMENTE NOS GENES

Para isso, é preciso decifrar o código genético de cada indivíduo. Ele contém todas as informações necessárias para a manutenção do corpo humano. Nele, é possível identificar, por exemplo, uma tendência patológica adormecida, mas que pode se manifestar em algum estágio da vida. Essas doenças não estão propriamente descritas em nossos DNAs, como "o gene do diabetes" ou "o gene do câncer de mama".

"Mas sabemos que o surgimento de algumas doenças crônicas está relacionado à alimentação, ao comportamento e, também, a fatores externos, como uma zona contaminada por algum agente químico", aponta José Eduardo Dutra de Oliveira, professor de Clínica Médica Especializada em Nutrologia da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (FMRP-USP). O trabalho da Nutrigênomica, então, é o de identificar os genes que, se ativados, poderão desencadear os processos que levam ao desenvolvimento dos mais diversos males. Feito isso, será possível evitar ou anular esses mecanismos pelo simples ato de comer o alimento cuja propriedade atue diretamente no gene controlador.

A NUTRIGENÔMICA VAI COLABORAR PARA QUE PESSOAS OBESAS CONSIGAM LUTAR CONTRA A BALANÇA, SEM PRECISAR RECORRER À CIRURGIA BARIÁTRICA

É a singularidade biológica que faz com que as substâncias tenham efeitos variados em cada pessoa. É o caso de indivíduos que fumam por muitos anos, mas nunca desenvolvem um câncer de pulmão. Mesmo motivo que faz com que uma mesma dieta, que funciona bem para alguns, não ajude outros a perder um quilo, sequer. Entre as comprovações já alcançadas por esta ciência está a de que cada ser humano tem um gene específico que regula a forma como o corpo vai queimar calorias.

O caminho para o corpo mais bonito (e saudável) reside na ativação desse mecanismo. "Esse novo horizonte ajudará as pessoas a manterem a forma. Acredito que a dieta personalizada vai colaborar para que pessoas obesas consigam lutar contra a balança, sem precisar recorrerem a uma intervenção agressiva e de risco, como é o caso da cirurgia bariátrica", avalia Dutra. Segundo o médico, além de uma alimentação ajustada ao perfil genético de cada indivíduo, a Nutrigenômica indicará qual deverá ser o comportamento mais adequado para grupos de pessoas, seja uma pequena comunidade ou uma nação inteira, de acordo com os hábitos alimentares de cada região.

Foto: Fabio Mangabeira e Shutterstock

OS NUTRIENTES INTERAGEM

O Projeto Genoma, que foi concluído em 2003 graças a um esforço global, mapeou toda a sequência de genes humanos. Hoje, o esforço de pesquisadores da Nutrigenômica é identificar e validar todos os genes cuja expressão possa ser modificada por componentes alimentares, para que esses alimentos sejam incorporados a estratégias nutricionais que visem melhorar a saúde e prevenir a doença - e, assim, descobrir a dieta ideal para cada ser humano, e os alimentos que podem influenciar positivamente a nossa herança genética. O desafio é grande. Foram relacionados mais de 30 mil genes distintos nos 23 pares de cromossomos que o ser humano possui.

O exemplo mais clássico de Nutrigenômica é o acúmulo da enzima fenilalanina no sangue, responsável pelos danos no cérebro em pacientes com fenilcetonúria (PKU). Por isso, os bebês acometidos por essa doença genética são submetidos imediatamente a uma dieta especial, pobre em fenilalanina. "Há 50 anos, não eram os testes genéticos que mostravam isso. Mas, hoje, a doença e a prescrição dietética se encaixam perfeitamente na Nutrigenômica", destaca Lucia. De acordo com ela, cerca de mil genes humanos ligados a doenças já foram identificados, assim como os nutrientes que têm ação sobre eles.

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