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Edição 106 | EXPEDIENTE |
Mais de 90% dos jovens brasileiros não são saudáveis POR I VAN ALVES
As redes de fast-food ganharam o mundo no fim dos anos 1980 comercializando um tipo de produto que é uma comida não saudável, mas rápida e fácil de comer: o junk food. De fato, hoje, instantaneidade e conforto são benefícios obrigatórios na maioria dos itens que as pessoas adquirem, seja na hora de se alimentar, como na escolha de um carro novo. Tanta comodidade requer cada vez menos esforço, mesmo em tarefas básicas. Os indivíduos mais novos, nascidos e criados nesse modelo, são os mais adaptados às transformações dessa era. Mas também são os mais expostos aos seus efeitos. A soma de uma alimentação desregrada, da pouca atividade física com a adesão de hábitos cada vez mais prejudiciais ao bem-estar do ser humano coloca a saúde da geração mais jovem sob ameaça. Esta é a “geração junkie”. Ser jovem significa aproveitar a vida ao máximo, ainda que isso implique a adoção e comportamentos prejudiciais à saúde. O preço, entretanto, pode ser alto. Uma recente pesquisa da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) faz um alerta preocupante. Segundo o estudo, apenas 8% dos brasileiros com idade entre 18 e 29 anos são considerados saudáveis. Para chegar ao resultado, a amostragem avaliou três hábitos em mais de 14 mil indivíduos de 27 capitais: tabagismo, frequência de prática esportiva e consumo corriqueiro de frutas e hortaliças. Para ser considerado saudável, esse jovem deveria comer vegetais cinco dias por semana, manter atividades físicas regulares e não fumar. Só 8% deles conseguiram. A prevalência de pessoas que mantinham apenas um dos três hábitos foi de 45,3%, seguidos por quem pratica ao menos dois, com 39,6%, enquanto 7% não reuniam nenhuma dessas características. GRUPO SOB AMEAÇA A exposição aos fatores de risco comportamentais, como o tabagismo, excesso de bebidas alcoólicas, alimentação inadequada e sedentarismo, está diretamente conectada ao desenvolvimento de doenças crônicas não transmissíveis, como as cardiovasculares, o câncer e o diabetes, principais causas de morte na vida adulta. Segundo o estudo Interheart, realizado em 52 países, fatores como dislipidemia (elevação das taxas de lipídios no sangue), tabagismo, hipertensão arterial, diabetes, obesidade, baixo consumo de vegetais, abuso de bebidas alcoólicas e inatividade física respondem por 90% do risco ao bem-estar dos homens e de 94% em mulheres, de todas as idades. JOVENS SEM MOVIMENTO Movimentar o corpo é preciso. O organismo humano funciona à base de energia, adquirida nos alimentos. Em média, o corpo de um adulto jovem consome cerca de 1.500 calorias por dia. De uma forma simples, os problemas de saúde, como a obesidade, começam quando uma pessoa ingere mais do que gasta. Além do pouco tempo dedicado à prática de pequenas atividades, como se levantar para trocar de canal na televisão, que deixaram de ser feitas depois de alguma invenção tecnológica, no caso, o controle remoto. Segundo Tânia Spinelli, educadora física do Hospital São Cristóvão, no RJ, as pessoas estão cada vez menos dispostas a realizar esportes. “Em geral, elas estão sem massa muscular, mas têm gordura de sobra, fonte de males como a hipertensão e o diabetes”. Ela alerta para o diagnóstico de determinadas doenças cada vez mais precoce. “Hoje lidamos com doenças em indivíduos de 20 anos que geralmente surgiam apenas em pessoas com idade mais avançada”, fala. Tânia destaca que a prática esportiva deve ser estimulada em crianças a partir dos 5 anos. “Um pai preocupado com a saúde do filho, não precisa necessariamente envolvê-lo em esportes competitivos. Em uma atividade recreativa, como a natação, há um alto gasto calórico, além de trabalhar os sistemas respiratório e cardíaco e colaborar para o desenvolvimento de sua coordenação motora. Para Durval Ribas Filho, presidente da Associação Brasileira de Nutrologia (Abran), os jovens recebem pouco incentivo para a prática esportiva regular. “Os exercícios precisam ser incentivados dentro de casa. Já atendi pais que solicitam que os filhos sejam dispensados das aulas de educação física”, alerta. CULTURA FAST-FOOD “A mãe das doenças é uma dieta deficiente. Nosso organismo não está evoluído ou adaptado para processar o que comemos hoje. Há poucas décadas, a obesidade era um mal que atingia os adultos. Hoje, testemunhamos uma era em que o número de jovens com sobrepeso cresce em alta velocidade”, lamenta Ribas. De acordo com o médico, a dieta típica do brasileiro — composta pelo arroz com feijão, salada e carne — é saudável. O problema é que o prato tupiniquim cada vez mais é deixado de lado. Ao substituir essa refeição equilibrada, as pessoas passam a consumir receitas ricas em gorduras saturadas. “Além disso, diminuímos o consumo de frutas”. Essas gorduras são responsáveis pelo desenvolvimento das neoplasias — tumores que atingem a região do intestino, gerando patologias como o câncer de cólon. Até 30% de todas as doenças neoplásicas vêm do consumo de alimentos. “Estamos caminhando no sentido oposto. Aumentamos a ingestão de açúcar, colesterol, gorduras saturadas e sal, substâncias diretamente ligadas ao desenvolvimento de doenças crônicas. Em vez de exportarmos nosso prato, como incentivo à saúde global, passamos a importar o que é prejudicial à saúde”, lamenta o nutrólogo. Uma dieta desequilibrada acumula mais gordura visceral, que se aloja na região da cintura. A substância é altamente prejudicial à saúde. Ela fica em contato com as vísceras, por isso o excesso favorece o desenvolvimento de mutações metabólicas, que dão origem a uma gama de doenças.
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