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Edição 106 | EXPEDIENTE
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  A verdade sobre os antibióticos
Eles salvam vidas. Mas também podem causar males à saúde. O uso indiscriminado desses medicamentos apenas fortalece o que eles deveriam matar: as temidas bactérias

por André Bernardo

De um lapso de memória nasceu uma das mais poderosas armas da medicina contra infecções bacterianas. É assim que pode ser descrita, em poucas palavras, a descoberta da penicilina em 1928, pelo bacteriologista inglês Alexander Fleming. O cientista trabalhava no Hospital St. Mary, na Inglaterra, onde observava o comportamento de uma cultura de Staphylococcus aureus, a temível bactéria que causa infecção generalizada.

Um dia, Fleming saiu de férias e esqueceu, em cima da mesa do laboratório, uma de suas placas de cultura, com amostras do estafilococo. Ao voltar, ele notou que o mofo parecia ter produzido uma substância que conseguira atacar a bactéria. Logo, concluiu que essa mesma substância poderia ser utilizada para impedir o desenvolvimento de outras bactérias. Como o fungo chamava-se Penicillium notatum, Fleming batizou a tal substância de penicilina.

"Há 70 anos, qualquer pessoa podia morrer de meningite ou pneumonia. Embora essas doenças continuem matando, conseguimos curar grande parte delas. E isso se deve, principalmente, ao uso dos antibióticos", afirma o infectologista Marcelo Simão Ferreira, presidente da Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI). "Claro que a cura de uma infecção não depende só do antibiótico. Depende também do sistema de defesa do hospedeiro. Em pessoas com câncer, os antibióticos atuam muito menos", ressalva.

Mais que depressa, Fleming isolou o fungo e descobriu que a penicilina era capaz, sim, de matar outros tipos de bactéria. E mais: por não ser tóxica para o corpo humano, poderia ser usada como remédio. "Antes da descoberta da penicilina, os cientistas tentaram de tudo: de sais de ouro a bismuto. As bactérias eram combatidas quase que por seleção natural", observa o toxicologista Sérgio Graff, da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).

O RISCO DAS INFECÇÕES

Alexander Fleming inaugurou uma nova era dentro da medicina: a dos antibióticos. Graças a ele, milhões de soldados feridos durante a Segunda Guerra Mundial foram salvos. O termo antibiótico vem do grego e significa: "contra a vida". A dos micro-organismos, diga-se de passagem. Hoje, alguns especialistas já refutam o termo e preferem "antimicrobiano" a "antibiótico".

"Os antimicrobianos são usados no tratamento de doenças causadas por agentes microbianos, que podem ser uma bactéria (pneumonia, por exemplo), um fungo (candidíase) ou um vírus (aids). Estas doenças são chamadas de infecções e cada tipo, de acordo com o agente que a provocou, tem um tratamento específico", afirma a farmacêutica Emília Vitória da Silva, do Centro Brasileiro de Informação sobre Medicamentos (Cebrim), órgão do Conselho Federal de Farmácia (CFF).

Em linhas gerais, os antibióticos podem ser divididos em sistêmicos e tópicos. Segundo Emília, os sistêmicos são aqueles que precisam atingir a corrente sanguínea para exercer sua ação terapêutica. Podem ser administrados por via oral (boca), intramuscular (injeção no músculo), intravenosa (injeção na veia) e aerossol, entre outros.

"Quando você administra um antimicrobiano por via oral, a substância atinge o estômago e passa, através da mucosa estomacal, para o sangue. Por esta, é levada até o seu local de ação, que geralmente é um órgão interno, como garganta ou pulmão", detalha Emília.

Já o uso tópico de antibióticos acontece quando estes agentes são aplicados diretamente na pele ou mucosas, principalmente em infecções dermatológicas (na pele), oftalmológicas (nos olhos), otológicas (nas orelhas) e ginecológicas (na vagina). "Os antimicrobianos tópicos têm ação localizada e pouca, às vezes nenhuma, quantidade do medicamento atinge a corrente sanguínea", afirma a farmacêutica.

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