Será que eu sou hipocondríaco? Conhecidos por rejeitar as opiniões médicas, o maior desafio é convencer os pacientes de que seu mal não é físico, mas pode ser tratado
Por Cristina Almeida | Foto: Fabio Mangabeira
De 4% a 7% dos pacientes ambulatoriais sofrem com a hipocondria. Definida como uma interpretação errônea das sensações corporais corriqueiras, uma de suas características é a forte rejeição às opiniões médicas. Segundo o psicanalista José Atilio Bombana, coordenador do Programa de Atendimento e Estudos de Somatização da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e professor do curso de Psicossomática do Instituto Sedes Sapientiae, a doença é comum a ambos os sexos e, em geral, surge entre os 20 e 30 anos de idade. Crianças também sofrem com o problema, mas para elas há esperança de recuperação na adolescência ou no início da idade adulta. O psicanalista esclarece que o quadro é fonte de angústia constante para o paciente e sua família. “O segredo é o equilíbrio: a família não deve compactuar com a obsessão por visitas médicas, exames e procedimentos desnecessários, nem ignorar o doente”. Confira a entrevista concedida à VivaSaúde.
Quais são as causas da hipocondria?
Elas ainda não foram esclarecidas precisamente, mas alguns aspectos ligados à história individual são relevantes. A valorização e o papel conferidos ao corpo e às doenças durante a vida do paciente, ou das pessoas importantes para ele, podem influenciar. Conta também a maior ou menor capacidade em lidar com as vivências físicas e psíquicas. Alguns têm recursos para pensar a respeito de si e de sua vida. Outros, nem tanto. Para estes, há maior suscetibilidade em vivenciar de modo mais concreto os fatos da vida e, assim, são mais vulneráveis às patologias, entre elas a hipocondria.
Quais são os principais sintomas?
Medo e crença de estar gravemente doente são os sintomas centrais. Os outros sinais são a iniciativa de buscar serviços de saúde repetidamente; solicitar realização de exames de modo exagerado; grande interesse por assuntos médicos e rejeição das opiniões dos especialistas. É frequente o conhecimento de variados medicamentos, embora nem sempre se faça uso deles, por temor de algum prejuízo. Sintomas de depressão e ansiedade também são comuns, bem como preocupação excessiva com o corpo, o que faz que tentem pesquisá-lo e decifrá-lo diante dos mínimos indícios.
Como é feito o diagnóstico?
Inicialmente pela constatação dos sintomas característicos, incluindo a não aceitação dos pareceres médicos. Alguma preocupação com o corpo é admissível. Mas discernir entre um traço de personalidade e uma condição claramente patológica é um desafio que só é superado pela experiência clínica. Diagnósticos diferenciais também são úteis. Primeiro, excluem-se patologias de difícil identificação; depois, deve-se dar atenção aos quadros depressivos, em que os sintomas hipocondríacos podem aparecer. Por outro lado, quando o medo de doenças é absolutamente inquestionável, podemos estar diante de um delírio hipocondríaco, que é uma psicose, outra categoria psiquiátrica.
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