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Edição 109 | EXPEDIENTE
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  No mundo da lua
Durante anos, crianças portadoras de TDAH foram tratadas como preguiçosas. Hoje, a partir de um exame clínico, é possível detectar e tratar o transtorno neurobiológico que está por trás de tantos problemas

Por Rita Trevisan Ilustração Luiz Lentini Fotos Fabio Mangabeira
 

Na sala de aula, ele se distrai com pouco, não consegue se concentrar na lição e pede para sair da classe o tempo todo. Em casa, esquece onde colocou o brinquedo, não responde às ordens da mãe e mostra-se extremamente agitado, iniciando diversas atividades ao mesmo tempo, porém sem concluir nenhuma. Esse menino, que até pouco tempo atrás seria duramente criticada pelos pais e teria seus sintomas ignorados pelo pediatra, já pode receber tratamento ao ser encaminhado ao neurologista ou ao psiquiatra infantil. Numa avaliação clínica, poderá receber o diagnóstico de TDAH, uma doença que atinge 5% das crianças no Brasil.

Produção: Janaina Resende / Modelo: Matheus Sousa

Afinal, o que é TDAH?
"O TDAH é um transtorno neurobiológico, de origem genética, e está relacionado à disfunção na região pré-frontal do cérebro, que é responsável por controlar os impulsos, inibir comportamentos inadequados e também pela capacidade de planejamento, organização, atenção e memória, entre outras funções", explica o psiquiatra Cesar de Moraes, coordenador do departamento de Psiquiatria da Infância e da Adolescência, da Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP). "A prevalência é semelhante em diferentes regiões do mundo e há pelo menos 42 países que mantêm associações de portadores ou familiares da doença. Isso prova que o transtorno não é secundário a fatores culturais, ao modo como os pais educam os filhos. Trata-se de uma doença cujos sinais clínicos são evidentes", explica o psiquiatra Paulo Mattos, pós-doutor em bioquímica, professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e um dos maiores especialistas no assunto do país.


Diagnóstico é clínico
O preconceito que existe em relação à doença provavelmente está ligado ao fato de que as alterações que a TDAH provoca no organismo não podem ser diagnosticadas ou medidas por exames laboratoriais. "O que fazemos, em geral, é conversar com os pais e observar a criança, avaliando leitura, escrita, raciocínio, memória, atenção e outras funções executivas, por meio da aplicação de testes específicos. Em alguns casos, também pedimos um relatório da escola e de outros profissionais que atendem a criança. Além disso, é imprescindível que ela passe por uma avaliação física, para se excluir a possibilidade de que tenha uma doença de base interferindo na atenção, como um problema de audição", diz Moraes.

As informações prestadas pela escola são fundamentais para se fechar o diagnóstico. "É lá, e normalmente a partir do ingresso no ensino fundamental, que os problemas começam a chamar mais a atenção. E a professora, por lidar com crianças de uma mesma faixa etária, é uma das pessoas mais qualificadas para avaliar se a postura do aluno está realmente fugindo do padrão. A visão da família pode ser enviesada e, muitas vezes, como os próprios pais são portadores do transtorno, eles acabam avaliando o comportamento da criança como adequado para a fase", esclarece Mattos.

Assim como em outros transtornos, a TDAH tem vários graus, provocando sintomas mais ou menos intensos para cada criança. É necessário fazer o tratamento quando a falta de atenção e o excesso de agitação começam a prejudicar o rendimento escolar, o relacionamento social, o convívio com a família e até a própria autoestima da criança, que ganha apelidos maldosos.

O melhor tratamento
Quem faz o diagnóstico e acompanha o tratamento é um neurologista infantil ou um psiquiatra. O problema pode ser abordado por diversas frentes, e a terapia cognitiva comportamental é uma forma bastante eficiente de trabalhar, com a criança, o fortalecimento da autoestima e a adoção de hábitos que vão ajudá-la a contrabalançar a difi culdade que tem em se concentrar em uma única atividade por muito tempo.

 O tratamento psicoterápico também é fundamental para que familiares e professores estejam aptos a favorecer o desenvolvimento da criança que tem esse transtorno. "O primeiro passo é receber informação sobre a doença: o que é TDAH, quais são os seus sintomas e as dificuldades que o portador do problema apresenta. E, nesse sentido, as terapias individuais, familiares e até os grupos de familiares e portadores da doença podem ajudar. A desinformação prejudica a vida da criança e de sua família porque adia a solução do problema", alerta a neurologista Célia Roesler.

No entanto, o uso de medicamentos é fundamental para garantir uma mudança significativa de atitudes na criança. "Vários estudos provaram que a terapia psicoterápica ajuda a aliviar sintomas secundários. Porém os remédios tratam a causa do problema", garante Mattos.

 

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